Não havia grandes problemas. Mas a soma dos pequenos inconvenientes poderia, de maneira irremediável, comprometer todo o corpo.
O Coração vivia reclamando da dificuldade em bombear o Sangue, porque este andava repleto de colesterol. O próprio Sangue reclamava do colesterol ao Estômago, que, por sua vez, dizia que era o Intestino quem não trabalhava a contento, permitindo a passagem daqueles indesejáveis ingredientes. O Fígado, os Rins, os Pulmões, enfim, todos os órgãos tinham o que reclamar.
Para se ter uma ideia de a que ponto as coisas andavam, as Orelhas diziam nada ter a ver com os problemas dos Olhos e eram obrigadas a carregar os óculos por toda parte. O Nariz imediatamente solidarizou-se com as Orelhas, dizendo que os tais óculos marcavam sua parte superior e o incomodavam demais.
Os Olhos, ofendidíssimos, falaram que, se não enxergassem direito, o primeiro a se esborrachar na parede seria o Nariz. O Nariz encolheu-se no canto, derrotado. Alguém comentou que quem bateria primeiro na parede seria a Barriga, mas, àquela altura, era melhor pôr panos quentes na discussão.
Foi assim que chegaram à conclusão da necessidade urgente de uma mão forte. De alguém que assumisse o comando geral e para quem todos pudessem direcionar seus memorandos de reclamações e propostas inovadoras.
Foi marcada uma reunião formal, de onde sairia eleito um chefe que, pelo menos num primeiro momento, aglutinaria os anseios de todos.
O primeiro a se manifestar na reunião, candidatando-se ao cargo de chefe, foi o Coração.
O Coração falava aos soquinhos, ora mais apressado, ora muito devagar:
— Tum tum, tum tum, tum tum… acho que sou eu o órgão principal. Sou eu quem bombeia o Sangue por todo o corpo. Se eu parar, o corpo morre imediatamente. Ninguém duvida disso. Tum, tum, tum tum, tum tum.
Terminou sua fala em uma disritmia terrível.
Enquanto todos ainda ponderavam seus argumentos, o Estômago pediu a palavra. Sua fala era calma, entremeada de suspiros. Parecia alguém muito gordo falando e que, a cada momento, tinha que parar para descansar.
— Sou eu quem processa o combustível do corpo. É por mim que passa tudo que nutre cada um dos aqui presentes. Devo chefiar porque, se eu selecionar bem o combustível, todos lucrarão com o resultado.
Em tom rápido, com as palavras fluindo sem parar, os Rins discursaram. Falavam um de cada vez, como se fossem um só.
— O corpo é composto de 70% de líquidos. Todos os líquidos passam por nós. Nada mais justo que ditarmos as regras do que o corpo deve ou não ingerir.
Assim foram, um a um, passando seus argumentos. Quando todos já tinham falado, inclusive o Fígado, que parecia levemente bêbado, o Cérebro pediu a palavra.
Sua voz era calma e precisa. Parecia dominar a boca como se esta fosse sua simples extensão. Falava sem atropelos ou monotonia. Elogiou as qualidades de cada um. Lembrou as vantagens do Coração, do Estômago, dos Rins. Citou a maioria dos presentes, mostrando o valor de cada um e trazendo argumentos que eles próprios não tinham usado.
Por fim, concluiu com uma modéstia invejável:
— Como vocês podem ver, meus amigos, para o bem ou para o mal, todas as decisões passam por mim. Confesso não gostar disso. Não gosto de decidir o que o corpo come, o que bebe, se deve fazer exercícios físicos, se pode exagerar na cerveja ou na feijoada. Mas, infelizmente, a mim coube o fardo de decidir tudo isso.
— Decidirei — continuou — a que horas o corpo deve deitar e levantar, o que deve comer e beber, quando reservar períodos para exercícios seguidos de descanso e assim por diante. Até a atividade sexual deverá ser mais regrada.
A aclamação foi geral. Um líder nato surgira.
Foi então que se ouviu uma voz fanhosa, anasalada, cheia de efes, pouco audível, pedindo a palavra.
No canto da mesa, sentado de modo que ninguém o percebera, por ser muito baixinho, lá estava o Cu.
— Ffor ffffavor… eu fffostaria de ffffalar…
Risos e indignações tomaram conta da reunião. Os Pulmões disseram não poder trabalhar enquanto aquela rodinha inferior estivesse ali. O Estômago afirmou só ter comparecido porque pensava que o Cu não fora convidado.
O mais revoltado era o Nariz, inimigo declarado do Cu há muito tempo. Era ele o responsável por impedir o corpo de praticar ioga, pois algumas posições exigiam proximidade com o arqui-inimigo.
A balbúrdia crescia quando, astuto, o Cérebro interveio. Falou de democracia, do direito de todos se manifestarem e, fingindo paciência, deu a palavra ao Cu.
— Fffff… feu afcho que o fchefffe deveria ser eu…
A reunião foi encerrada naquele momento. O Cu foi retirado da sala, excomungado e proibido de participar de novas assembleias.
Prometeu greve.
Ninguém deu atenção.
No começo tudo parecia perfeito. O corpo funcionava como nunca.
Até que o Intestino Grosso percebeu o problema: sem o Cu, não havia vazão. O Estômago diminuiu o ritmo. Logo os Rins e o Fígado se comprometeram. O Sangue já não levava oxigênio puro.
Para piorar, o Cu se aliara aos Radicais Livres, que promoviam atentados por todo o corpo.
O caos se instalou.
Nova reunião foi marcada. Desta vez o Cu teve lugar de honra.
O Cérebro já não mostrava lucidez. Falava mole.
Não houve acordo.
O Cu foi aclamado chefe do corpo.
É por isso que, quando as coisas vão mal e não se tem em quem pôr a culpa, alguém sempre resmunga:
— Esse chefe é um cu mesmo…
E foi daí que nasceu a expressão:
“Quem tem cu tem medo.”
Campinas, 23 de novembro de 2003