Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
UM DIA DE SPIELBRG
Sempre gostei de escrever. Escrevo crônicas com relativa facilidade.
Pelo gênero da poesia ou música nunca me aventurei direito. Fiz uma aqui, outra acolá ao longo da vida.

Com a chegada do Programa de I.A. Suno escolhi uma canção antiga e dei os comandos mais simples, não entendia nada do assunto. Quando saiu a música eu entrei em parafuso. Me apaixonei perdidamente em ver minhas palavras cantadas profissionalmente e com arranjos da mesma qualidade. Me senti um astro.

A partir daí não sabia o que fazer. Queria poesias pra transformar em músicas e não tinha.
Já que não tem. O único jeito é fazer poesias. E, timidamente, comecei a fazer letras de músicas para o Suno compor arranjos e pôr voz. Fiz muitas músicas, umas 30 mais ou menos. Com o tempo coloquei no YouTube, depois no Spotify.

Passada a fase do encantamento, queria que as pessoas ouvissem minhas músicas até pra saber se eram boas, porque eu não podia avaliar, pra mim são ótimas. Só que minha audiência são alguns parentes e amigos me fazendo favores.

Descobri recentemente que as pessoas, para ver um vídeo no YouTube, têm que ter alguma imagem. Os primeiros fiz com uma imagem parada. Depois, usando um programa, fiz mais imagens e alguns efeitos, como estrelas caindo, fumaça e coisas assim, mas ainda estava pobre, mito pobre. Ninguém queria ver ou ouvir.

Surgiu um programa que dá para fazer um pequeno videoclipe. Escolhi uma das minhas músicas preferidas para fazer o meu primeiro filme.

Levei a letra da música ao GPT e ele sugeriu 10 cenas. Então eu precisava fazer 10 cenas de 10 segundos e depois ir ajeitando para casar letra e música.

Era uma música de reconciliação que fiz há algum tempo. Chama-se Abraço Final.
Quando comecei a letra da música eu ia falar da despedida e pronto. Mas no meio do processo fiquei com pena dos personagens e resolvi, na última estrofe, fazer uma reconciliação. Claro que tive que rever toda a letra, mas ficou muito bonito.

Começa com o homem de cabeça baixa no sofá, as malas prontas. Ele dormiu no sofá. Aí ela chega com os olhos inchados de chorar e eles vão dar o abraço final de despedida. O abraço fica um pouco mais longo, ele acaba beijando o pescoço dela, ela o beija também, fazem amor na sala mesmo e fim.

Tenho duas versões. Em ambas o homem é que vai embora. Uma delas o eu lírico é o homem, a original. Em outra que fiz depois, adaptei a letra para voz feminina e é essa que resolvi fazer o videoclipe.

A cena inicial seria o homem de cabeça baixa no sofá onde dormiu. A cena seguinte ela chega e eles se abraçam. Mas o soft que uso não funciona fácil assim. Dá um grande trabalho para se fazer o que quer porque, como todos sabem, os norte-americanos em questão de sexo, são super puritanos e o programa é deles.

Se tiver um homem e uma mulher acende algum alerta e ele simplesmente não faz a cena ou faz de jeito que não serve. Falou em casal, tem que escolher bem as palavras, senão trava. Passei o dia inteiro da sexta-feira para concluir.

Colocava um trecho da música e a imagem gerada pela I.A. tentando encaixar e contar uma história. Aqui cabe uma confissão: em certos momentos me senti o Spielberg montando um blockbuster. Mas consegui terminar e, embora não seja o que imaginei, ficou muito legal.

No outro dia à noite, quando já estava na cama, me lembrei da música e do clipe. Só neste momento, mais de 24 horas depois, percebi que eu estava trabalhando no dia anterior sob forte emoção. Mas eu não me lembrava dela ser tão forte na hora do trabalho. No silêncio da noite eu revia as cenas do clipe e me emocionava muito ao ver as minhas palavras, já cantadas, agora se transformando em imagens.

Eu me senti jovem como os personagens, senti toda a emoção de uma reconciliação descrita na letra.

A esperança, o abraço, o amor no tapete, ambos falando baixinho.

Eu nunca descobri por que nessas horas a gente fala baixinho, sussurra. Na letra da música coloquei este detalhe sem me dar conta e, naquela hora, deitado senti emoção ao ouvir as palavras, os acordes e assistir à cena.

Foi um prazer fora do comum. Eu mesmo não passei por uma situação de reconciliação daquele jeito, mas, por óbvio, já tive reconciliações e esse sentimento é que me movia.

E não parou por aí, ficou comigo por todo o dia de trabalho, pelo dia seguinte e somente àquela hora, no silencio da noite é que ele se apresentou por inteiro. Eu me sentia jovem como os personagens. E sentia cada palavra da letra cada acorde da música e as cenas que ia montando.

No domingo resolvi descobrir por que aconteceu isso, de sentir somente depois. Fui ao Dola, que é uma IA que responde longamente às minhas perguntas e ainda lê as respostas. Ela disse que, por diversos motivos, o meu cérebro foca no trabalho a ser feito e ofusca as emoções. Passado um tempo, quando o cérebro vê o serviço terminado e eu em segurança, ele traz a emoção para eu sentir.

Achei bem interessante. A explicação caiu como uma luva. Mais tarde fui novamente perguntar para a IA de onde ela tinha tirado aquilo tudo, se Freud, Jung e outros falaram sobre o tema.

A resposta foi que sim, que eles falaram. Ela trouxe bonitinho o que cada um falou a respeito, o que diz a psicologia moderna e o que dizem os cientistas que estudam o cérebro e o comportamento.
O nome do negócio é Dissociação Funcional. Confesso que fiquei com medo de ela dizer que eu era retardado, mas não, grande parcela da sociedade funciona assim.

Uma experiência fabulosa que pretendo que se repita.

Fico imaginando um filme de verdade, com efeitos especiais e tudo, deve ser uma experiencia muito rica. E eu, cidadão comum, pude pelo menos vislumbrar essa emoção.

Campinas, 7 de junho de 2026

PS. vou colocar a música aqui no site caso alguém queira ouvir e o link para o Youtube
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 16/06/2026
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