Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

UMA CHORADINHA

Minha filha Marlene tem uma expressão que acho interessante: “dei uma choradinha”.

Não compreendo muito bem a frase, mas, embora a ache engraçada, só tinha uma ideia do significado.

Visito, com regularidade, em uma casa de repouso, a minha mãe, que tem 93 anos e Demência/Alzheimer.

Outro dia, ela estava muito quieta, apática, parecia que sua doença estava mais grave. Quando tinha que falar, às vezes só cochichava.

Em dado momento, eu mexia nos cabelos fininhos dela, acariciando seu rosto, enquanto ela estava de cabeça baixa. Ela levantou a cabeça, com um sorriso no rosto, os olhos com um brilho diferente, e disse:

— Meu filho, estou indo para o céu.

Estávamos em um jardim; ela fez um gesto que incluía todo o local enquanto completava dizendo que era muito bonito.

— Mãe, que coisa linda. Vá, minha mãe.

Senti que a frase “vá, minha mãe” saiu sussurrada, como quem fala sem acreditar no que está dizendo.

Assim como veio, a sensação dela se foi.

Conversamos outras coisas. Depois de uns vinte minutos, ela trouxe o mesmo sorriso e o mesmo olhar. Minha testa estava encostada na testa dela, eu segurava suas mãos, e ela repetiu:

— Filho, estou indo para o céu.

Eu repeti o que tinha dito antes e senti um nó na garganta.

Meus olhos se umedeceram. Fiz força para que ela não percebesse e, finalmente, compreendi a fala da minha filha. Naquele momento, eu dei uma choradinha.

Então é isso a choradinha?

Passei o resto do dia pensando, sentindo tudo o que está acontecendo com maior intensidade. Minha choradinha durou muito tempo.

Eu oro pela minha mãe todos os dias, mas nunca tive coragem de pedir que ela partisse ou que fosse abreviado seu tempo nesta vida. Talvez por achar que esse pedido seria por mim, não por ela. Ela parece e diz que está feliz neste mundo sem memória.

Quero o melhor para ela, mas aquelas palavras, indicando que o final se aproxima, me fazem querer dar uma choradinha, mesmo agora, enquanto escrevo o acontecido.

Campinas, 4 de maio de 2026

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/05/2026
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