Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

Poltrona e cafuné

Adoro filmes de guerra. Também gosto de fatos históricos sobre guerra. Tudo isso da minha deliciosa Poltrona do Papai e no conforto do ar-condicionado. Guerra dos outros vista desse lugar — quem não quer?

Um fato histórico interessante foi Napoleão entrar na URSS com mais de meio milhão de soldados, querendo marchar até Moscou.
Os suprimentos terminando, inverno rigoroso, e ele não voltava atrás. Finalmente chegou a Moscou, onde teriam comida, remédios e abrigos… e encontraram a cidade incendiada.
Deu ruim.
Teve que voltar. Morreram quase todos de frio, de fome, de ataques.

A minha Poltrona do Papai, já citada, só perde em conforto para a ausência de gravidade. As pessoas flutuando, e eu dando bronca na minha poltrona: vê se aprende aquilo lá.

Mas a Poltrona do Papai deixa eu e a Eva muito distantes fisicamente. Vimos uma tripla na loja e resolvemos, mais pra frente, comprar e um se deitar no colo do outro.
Contei pra minha filha Marlene, e ela me dissuadiu da ideia, porque ela tem, usa pouco e se arrependeu. Disse que, na prática, o contato físico com o Sérgio fica até mais difícil.

Achei a opinião dela pertinente, e refiz meus planos.

Porém, hoje de manhã, recebi uma mensagem — como sempre carinhosa — dizendo que ela tinha prestado bem atenção e que não está mais arrependida da compra. Contou que teve um dia difícil, sentou, deitou no colo do Sérgio, e ele fez um cafuné nela. E o cafuné compensa qualquer defeito — ou melhor, faz a gente esquecer o resto.

Desde então, não me sai da cabeça a ideia de que cafuné, entre outras coisas, faz a gente voltar atrás. Se alguém parasse no meio da campanha de Napoleão, o sentasse numa dessas poltronas e fizesse um cafuné nele, ele voltaria atrás. Um simples cafuné teria evitado o estrago.

Hirohito, o imperador japonês, era como um símbolo. Quem comandava a guerra eram os generais. Os americanos jogaram duas bombas atômicas, uma em cada cidade arrasando tudo, e nem assim os generais voltaram atrás e se renderem.

O imperador teve que intervir e parar os generais. Eu pergunto: será que se, antes, esses generais tivessem recebido uns cafunézinhos não teriam evitado as bombas?

O fato é que cafuné vale mais do que conforto. Vale mais do que flutuar sem gravidade.

No fim, talvez o mundo precise menos de estratégia e mais de cafuné.

Viva o cafuné.

Campinas, 20 de abril de 2026

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 20/04/2026
Alterado em 01/05/2026
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