O Caso da Bucha
Não costumo dormir à tarde, mas ontem, depois do almoço, bateu um sono daqueles. Há quem diga que é porque eu tinha um trabalho a fazer, mas aí é intriga da oposição.
A Eva disse que ia aproveitar e dar um pulo no shopping. Iria comprar algo planejado há dias.
Entrei no quarto, apaguei a luz, cortinas fechadas, liguei o ar-condicionado — aquele frio gostoso — relaxei deliciosamente.
Quando percebi que iria dormir mesmo, dei um comando à Alexa:
— Alexa, alarme em quarenta minutos.
Depois disso, minha última lembrança é o alarme e o meu segundo comando:
— Alexa, pare.
E acabou.
Daí em diante, minha memória vira um borrão.
Minha próxima lembrança é eu no chão, levantando a cabeça muito devagar, muito perdido, e com uma mancha enorme no braço, que a pouca luz não me deixava distinguir. Sem óculos, no escuro, eu não conseguia entender o que era aquilo, nem onde eu estava — foi uma sensação nada agradável. Nisso, a porta do quarto abriu um pouquinho, entrou um filete de luz — era a Eva.
Pedi, com voz pastosa, para ela acender a luz.
Aí vi que o que tinha no meu braço era nada mais nada menos que sangue.
Ela olhou para mim no chão e entrou no quarto como um foguete.
Meu rosto estava coberto de sangue. Escorria pelos olhos, nariz, boca. E eu completamente fora do ar.
Ela me ajudou a levantar, me levou até o banheiro, abriu a torneira de água morna da pia, enfiei a cabeça embaixo e, com isso, foi possível saber que o ferimento principal era na testa. Era dali que vinha todo aquele sangue.
Algodão, pressão… ainda com a roupa suja de sangue e tonto, amparado pela Eva, me deitei novamente. Em pouco tempo, parou de sangrar.
Confesso que estava muito nervoso. Não sabia o que tinha acontecido e fiquei ali, deitado com a Eva, esperando me acalmar um pouco.
— Vamos ao hospital pra fazer uma tomografia. A pancada foi muito forte, eu ouvi lá de baixo, por isso subi aqui no quarto.
Eu, naquela lógica masculina que os homens certamente entendem:
— Ah, foi só um corte pequeno…
Aí perguntei:
— Ué… você não ia ao shopping?
Ela respondeu com a maior naturalidade:
— Eu fui. Mas, depois de dirigir umas quadras, resolvi voltar.
— Assim, do nada?
— É.
— Nunca vi você fazer isso.
— É porque eu nunca fiz.
Fiquei intrigado. Seria um sinal?
Na dúvida, resolvi ir fazer a tal tomografia.
Fui tomar banho. Ela levou um banquinho, pra eu tomar banho sentado, que eu insisti que era desnecessário, mas, assim que ela saiu, sentei-me e fiquei ali, lamentando minha sorte.
Lavei o rosto com sabonete, passei as mãos no ferimento, mas não dava pra ver direito a extensão. Mesmo tendo parado de sangrar, não dava para precisar ao certo o corte.
Sem pensar muito, peguei a bucha com sabonete e passei sobre o machucado.
Na hora que passei… o sangue voltou a jorrar.
Eu lavava, lavava e nada de parar. Tentava estancar o sangue com os dedos, as mãos, e nada.
A Eva voltou, viu a cena e perguntou:
— O que aconteceu?
— Não sei, lavei com sabonete e voltou a sair sangue.
Ela me olhou desconfiada:
— Você não passou a bucha, né?
— Claro que não. Não sou doido — menti descaradamente.
Fomos para o hospital.
No caminho, eu tentando conter o sangue, improvisando ali do jeito que dava. Ensopava um algodão, eu trocava, e fomos seguindo.
Chegando lá, a Eva foi na frente resolver a papelada.
E eu, mais devagar, a seguindo. Quando entrei no saguão, o segurança me viu e já veio direto:
— Foi queda?
— Foi.
Eu não disse nada sobre a bucha. Estava confuso, nervoso, com medo.
Fui direto para a triagem. Perguntas, mais perguntas. A Eva entrou na sala, ajudou a responder o interrogatório.
Sobre a bucha? Não dei uma palavra.
Finalmente, deitado na maca, veio o médico.
Ele examinou, explicou por que sangrava tanto, pediu exame de sangue, do coração e tomografia. Por um momento, pensei em confessar, vai que tenha implicações mais tarde. Mas mantive segredo.
Eu tenho um pequeno problema com exame de sangue: minhas veias parecem sumir ao simples fato de se falar em tirar sangue. Naquela situação em que me encontrava, achar uma veia é uma tarefa nada fácil.
A enfermeira estava do meu lado esquerdo e perguntou de que lado costumam tirar.
Não sou X-9, não entregaria que o braço direito era mais fácil. Poderia entregar, mas temia reações futuras dele.
Ela tentou no esquerdo, batia procurando veia e nada. Aí ameaçou tentar nos pés, onde dizia ter visto uma veia. Sabendo que nos pés dói muito, fui obrigado a entregar o braço direito. Ele compreendeu, sob tortura é difícil não ceder.
Foi a única coisa que falei. Sobre a bucha… continuei em silêncio absoluto.
O médico foi embora distribuindo ordens para as enfermeiras: você cuida da tomografia, veja isso, aquilo e aquilo outro. Você prepare tudo para o exame de sangue, e assim por diante. Para uma delas, escutei ele falar em pontos falsos.
O que seriam esses pontos falsos? Seriam alguns espiões que poderiam descobrir o lance da bucha. Fiquei em silêncio, achei melhor observar tudo com atenção dobrada.
A enfermeira que passou por mim olhou rápido demais. Outra cochichou alguma coisa que eu não entendi. Naquele momento, tive certeza: se alguém ali soubesse da bucha, eu estava perdido.
De todos os exames que fiz, o mais interessante foi a tomografia. Uma máquina daquelas que vemos nos filmes: a gente se deita, empurram a maca pra dentro da máquina e examinam tudo, tim-tim por tim-tim. Pensei que, se não descobrissem sobre a bucha ali, eu estaria livre.
Não descobriram.
Exames feitos, voltei pra casa com pontos falsos na testa, o lábio inchado, o joelho reclamando e dores em lugares onde, curiosamente, eu nem tinha passado a bucha.
Chegando em casa, fiz o que qualquer cidadão treinado por séries policiais faria:
Peguei a bucha — a verdadeira arma do crime — e dei um fim nela digno dos mais cruéis terroristas. Peguei uma tesoura, cortei a danada em pedaços menores que uma moeda de um centavo e fui dando descarga aos poucos. Teve o fim merecido. Não me arrependo.
Campinas, 9 de abril de 2026
PS
Tudo isso foi verdade — salvo pequenos
exageros e algumas liberdades narrativas.
Mas uma coisa ficou martelando na minha
cabeça: a volta da Eva.
Ela saiu, dirigiu algumas quadras… e voltou,
sem motivo.
Cinco minutos depois, ocorre o acidente.
É, no mínimo, curioso.