Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

 O Caso da Bucha

 

 

Não costumo dormir à tarde, mas ontem, depois do almoço, bateu um sono daqueles. Há quem diga que é porque eu tinha um trabalho a fazer, mas aí é intriga da oposição.

A Eva disse que ia aproveitar e dar um pulo no shopping. Iria comprar algo planejado há dias.

Entrei no quarto, apaguei a luz, cortinas fechadas, liguei o ar-condicionado — aquele frio gostoso — relaxei deliciosamente.

Quando percebi que iria dormir mesmo, dei um comando à Alexa:

— Alexa, alarme em quarenta minutos.

Depois disso, minha última lembrança é o alarme e o meu segundo comando:

— Alexa, pare.

E acabou.

Daí em diante, minha memória vira um borrão.

Minha próxima lembrança é eu no chão, levantando a cabeça muito devagar, muito perdido, e com uma mancha enorme no braço, que a pouca luz não me deixava distinguir. Sem óculos, no escuro, eu não conseguia entender o que era aquilo, nem onde eu estava — foi uma sensação nada agradável. Nisso, a porta do quarto abriu um pouquinho, entrou um filete de luz — era a Eva.

Pedi, com voz pastosa, para ela acender a luz.

Aí vi que o que tinha no meu braço era nada mais nada menos que sangue.

Ela olhou para mim no chão e entrou no quarto como um foguete.

Meu rosto estava coberto de sangue. Escorria pelos olhos, nariz, boca. E eu completamente fora do ar.

Ela me ajudou a levantar, me levou até o banheiro, abriu a torneira de água morna da pia, enfiei a cabeça embaixo e, com isso, foi possível saber que o ferimento principal era na testa. Era dali que vinha todo aquele sangue.

Algodão, pressão… ainda com a roupa suja de sangue e tonto, amparado pela Eva, me deitei novamente. Em pouco tempo, parou de sangrar.

Confesso que estava muito nervoso. Não sabia o que tinha acontecido e fiquei ali, deitado com a Eva, esperando me acalmar um pouco.

— Vamos ao hospital pra fazer uma tomografia. A pancada foi muito forte, eu ouvi lá de baixo, por isso subi aqui no quarto.

Eu, naquela lógica masculina que os homens certamente entendem:

— Ah, foi só um corte pequeno…

Aí perguntei:

— Ué… você não ia ao shopping?

Ela respondeu com a maior naturalidade:

— Eu fui. Mas, depois de dirigir umas quadras, resolvi voltar.

— Assim, do nada?
— É.
— Nunca vi você fazer isso.
— É porque eu nunca fiz.

Fiquei intrigado. Seria um sinal?

Na dúvida, resolvi ir fazer a tal tomografia.

Fui tomar banho. Ela levou um banquinho, pra eu tomar banho sentado, que eu insisti que era desnecessário, mas, assim que ela saiu, sentei-me e fiquei ali, lamentando minha sorte.

Lavei o rosto com sabonete, passei as mãos no ferimento, mas não dava pra ver direito a extensão. Mesmo tendo parado de sangrar, não dava para precisar ao certo o corte.

Sem pensar muito, peguei a bucha com sabonete e passei sobre o machucado.

Na hora que passei… o sangue voltou a jorrar.

Eu lavava, lavava e nada de parar. Tentava estancar o sangue com os dedos, as mãos, e nada.

A Eva voltou, viu a cena e perguntou:

— O que aconteceu?

— Não sei, lavei com sabonete e voltou a sair sangue.

Ela me olhou desconfiada:

— Você não passou a bucha, né?

— Claro que não. Não sou doido — menti descaradamente.

Fomos para o hospital.

No caminho, eu tentando conter o sangue, improvisando ali do jeito que dava. Ensopava um algodão, eu trocava, e fomos seguindo.

Chegando lá, a Eva foi na frente resolver a papelada.

E eu, mais devagar, a seguindo. Quando entrei no saguão, o segurança me viu e já veio direto:

— Foi queda?

— Foi.

Eu não disse nada sobre a bucha. Estava confuso, nervoso, com medo.

Fui direto para a triagem. Perguntas, mais perguntas. A Eva entrou na sala, ajudou a responder o interrogatório.

Sobre a bucha? Não dei uma palavra.

Finalmente, deitado na maca, veio o médico.

Ele examinou, explicou por que sangrava tanto, pediu exame de sangue, do coração e tomografia. Por um momento, pensei em confessar, vai que tenha implicações mais tarde. Mas mantive segredo.

Eu tenho um pequeno problema com exame de sangue: minhas veias parecem sumir ao simples fato de se falar em tirar sangue. Naquela situação em que me encontrava, achar uma veia é uma tarefa nada fácil.

A enfermeira estava do meu lado esquerdo e perguntou de que lado costumam tirar.

Não sou X-9, não entregaria que o braço direito era mais fácil. Poderia entregar, mas temia reações futuras dele.

Ela tentou no esquerdo, batia procurando veia e nada. Aí ameaçou tentar nos pés, onde dizia ter visto uma veia. Sabendo que nos pés dói muito, fui obrigado a entregar o braço direito. Ele compreendeu, sob tortura é difícil não ceder.

Foi a única coisa que falei. Sobre a bucha… continuei em silêncio absoluto.

O médico foi embora distribuindo ordens para as enfermeiras: você cuida da tomografia, veja isso, aquilo e aquilo outro. Você prepare tudo para o exame de sangue, e assim por diante. Para uma delas, escutei ele falar em pontos falsos.

O que seriam esses pontos falsos? Seriam alguns espiões que poderiam descobrir o lance da bucha. Fiquei em silêncio, achei melhor observar tudo com atenção dobrada.

A enfermeira que passou por mim olhou rápido demais. Outra cochichou alguma coisa que eu não entendi. Naquele momento, tive certeza: se alguém ali soubesse da bucha, eu estava perdido.

De todos os exames que fiz, o mais interessante foi a tomografia. Uma máquina daquelas que vemos nos filmes: a gente se deita, empurram a maca pra dentro da máquina e examinam tudo, tim-tim por tim-tim. Pensei que, se não descobrissem sobre a bucha ali, eu estaria livre.

Não descobriram.

Exames feitos, voltei pra casa com pontos falsos na testa, o lábio inchado, o joelho reclamando e dores em lugares onde, curiosamente, eu nem tinha passado a bucha.

Chegando em casa, fiz o que qualquer cidadão treinado por séries policiais faria:

Peguei a bucha — a verdadeira arma do crime — e dei um fim nela digno dos mais cruéis terroristas. Peguei uma tesoura, cortei a danada em pedaços menores que uma moeda de um centavo e fui dando descarga aos poucos. Teve o fim merecido. Não me arrependo.

Campinas, 9 de abril de 2026

 

 

 

PS
Tudo isso foi verdade — salvo pequenos

exageros e algumas liberdades narrativas.

Mas uma coisa ficou martelando na minha

cabeça: a volta da Eva.

Ela saiu, dirigiu algumas quadras… e voltou,

sem motivo.

Cinco minutos depois, ocorre o acidente.

É, no mínimo, curioso.

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 10/04/2026
Alterado em 01/05/2026
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