Caminhando nas redondezas de casa encontrei uma pequena e estranha pedrinha. Tinha o tamanho de um grĂŁo de feijĂŁo e aparentava ser algum cristal ou vidro muito brilhante. Intrigado examinei a coisa de todas as formas e, por fim, guardei no bolso e segui em frente.
Dias depois, mexendo no computador distraidamente coloquei a tal pedrinha sobre o teclado. A pedrinha começou a brilhar mais e mais e, de repente, na tela do computador surgiu ninguém menos que o Bill Gates. Ele olhou diretamente nos meus olhos, e disse:
â OlĂĄ meu amigo ClĂ©riston.
Fiquei pasmo. Olhei pra trĂĄs, cocei os olhos e pensei que nunca mais comeria feijoada antes de dormir...
â O que Ă© que hĂĄ meu amigo? â continuou o Bill Gates interrompendo meus pensamentos â Parece que vocĂȘ nĂŁo me conhece! Acho que vocĂȘ gosta mais do meu sĂłcio.
Dizendo isso sua figura foi se transformando, sumiu da tela e surgiu o Steve Jobs, em formato tridimensional, pouco acima do computador. Uma figura perfeita, do tamanho de um abajur, bem na minha frente.
â Porque tanto espanto? VocĂȘ achou uma lĂąmpada maravilhosa e eu sou o gĂȘnio da lĂąmpada, ou melhor, nĂłs somos: o Bill e eu.
âMas que lĂąmpada? â eu disse me achando estĂșpido em falar com aquela aparição, â Eu nĂŁo achei nada!
â Claro que achou! E a luz de led que estĂĄ aĂ no teclado?
â GĂȘnio em lĂąmpada de Led? Onde jĂĄ se viu isto? â perguntei ainda pensando na feijoada.
O Steve Jobs sorriu e disse que são os novos tempos, tecnologias modernas, evolução. Eu parado, sem entender nada, sem conseguir concatenar as ideias, parecendo um débil mental.
Meio que mecanicamente falei sem me dar conta exatamente do que dizia:
â EntĂŁo tenho direito a trĂȘs pedidos, se nĂŁo me falha a memĂłria.
â NĂŁo se afobe meu rapaz. VocĂȘ esqueceu a inflação, as crises etc. Agora vocĂȘ tem direito a apenas um desejo.
Lisonjeado por ter sido chamado de rapaz quase me esqueço do negócio dos desejos, mas Steve Jobs insistiu:
â E entĂŁo? O que vai ser?
Aos poucos eu estava me inteirando da situação. Olhei pra ele, pensei um pouco e disse que queria ver o meu Santos campeĂŁo do mundo. Ele me olhou meio espantado e disse que era um pedido estranho, afinal, todos pedem dinheiro, poder e coisas do gĂȘnero, mas ia ver o que poderia fazer.
Ficou um pouco em silĂȘncio como que me examinando, depois começou a perguntar detalhes dos campeonatos e jogos para o desejo ser realizado. Expliquei que primeiro o Santos tinha que ser campeĂŁo da Libertadores e vi que o coitado do Steve nĂŁo estava acompanhando o raciocĂnio. âAmericanos...â, pensei, mas ele fez um gesto com as mĂŁos para eu esperar e, em frente a seu rosto, apareceu a seguinte frase em letras brilhantes:
â Please wait...â
Em seus pés, como se fosse a legenda de um filme, apareceu aquela barra de computador que indica que hå um download em andamento. Quando a tal barra se completou, ele olhou-me com ar superior e disse:
â JĂĄ compreendi. Ă possĂvel sim atender seu pedido. Mas hĂĄ uma nova ordem e vocĂȘ tem que nos dar algo em troca. Ă a lei universal do equilĂbrio. Pense em uma coisa importante que vocĂȘ pode nos dar para ter o seu desejo satisfeito. Daqui a exatos trinta dias faça contato e veremos o que pode ser feito.
Falando isso sumiu. A pedrinha voltou a ser como antes e, por mais que eu mexesse nos teclados, nada acontecia.
Achei que nĂŁo era justo. Nenhuma estĂłria de gĂȘnios se fala em pagamento. Afinal o herĂłi â que no caso sou eu â libertou o gĂȘnio da lĂąmpada. Em contrapartida, eu teria direito a realização de trĂȘs desejos, sem nada desse negĂłcio de lei do equilĂbrio. Amaldiçoei os americanos que deturpam atĂ© as fĂĄbulas. Com eles tudo se torna transaçÔes comerciais. Fosse um gĂȘnio tradicional e seria tudo diferente.
Os dias se passaram e nĂŁo consegui achar algo para oferecer ao Steve. Pensei em trocar o pedido pelo prĂȘmio da megasena, mas achei que nĂŁo me traria tanta satisfação. Pensei em centenas de coisas para me desfazer em troca do pedido, mas nada que eu tinha era descartĂĄvel. Finalmente chegou o dia sem eu ter conseguido o que o gĂȘnio pediu. Minha saĂda era tentar um lance arriscado. Como sei que americanos nada entendem de futebol, no contato seguinte eu disse tentando disfarçar a insegurança:
â Olha seu Steve, tem duas alternativas. A primeira Ă© uma vida em troca do meu pedido. Eu ofereço a vida da dona Fernanda, minha sogra.
O Steve manteve-se impassĂvel. Eu nĂŁo sabia se ele estava caindo na minha. Fiquei encarando-o com firmeza e uma seriedade fingida.
â NĂŁo gostamos muito de vidas â disse ele â, mas vamos estudar. Qual a segunda opção?
Eu olhei em seus olhos, pensei novamente no fato de ele nĂŁo entender de futebol, respirei fundo e disse:
â Em troca do campeonato mundial para o Santos vocĂȘ pode rebaixar o Corinthians para a segunda ou terceira divisĂŁo.
Ele me olhou no fundo dos olhos, alisou o queixo, respirou longamente e em silĂȘncio. Encarava-me, mas parecia nĂŁo me ver de verdade. Meu coração ameaçava sair pela boca. Ele levantou a mĂŁo em sinal de me mandar esperar e novamente apareceu a frase cobrindo seu rosto:
âPlease wait...â
E tudo se apagou.
NĂŁo sei o que aconteceu. Percebo uma sequĂȘncia incrĂvel de vitĂłrias santistas. Por sua vez, o Corinthians vem afundando cada vez mais, e pra completar, outro dia tive que ir a contragosto na casa da minha sogra porque ela estava inexplicavelmente muito doente. Fiquei pensando que, afinal, eu poderia ter enganado o gĂȘnio e conseguido os meus trĂȘs desejos. Ă aguardar os trinta dias de praxe.
Quanto a vocĂȘ caro leitor, nada posso lhe adiantar atĂ© o novo contato com o Steve. Por enquanto sĂł posso lhe dizer o seguinte:
â Please wait...
Campinas, 8 de junho de 2011