Derico havia trocado suas milhagens por uma viagem a Santiago do Chile. Passado algum tempo, perdeu a vontade de viajar e estava completamente desmotivado para o passeio, embora muito necessitado de férias.
Wilma, ao contrário, por ser uma viagem com que sonhava havia anos, mal se continha esperando a hora.
O plano inicial era acertar apenas um hotel para os primeiros dias em Santiago; depois pegariam um voo interno e seguiriam para a região dos lagos andinos, ponto final.
Quando o dia da viagem se aproximava, Derico achou que seria melhor arranjar tudo com uma agência e não esquentar a cabeça. Com apenas quatro dias de antecedência, ligou para uma agência indicada por alguém e pediu o tal pacote.
Na sexta-feira, véspera da viagem, às seis da tarde, Derico já estava com todos os vouchers na mão e tudo agendado: estadias em Santiago, Puerto Montt, Puerto Varas, Peulla, Bariloche, Buenos Aires e, finalmente, retorno para São Paulo via Santiago, incluindo transfers, passeios e tudo o mais. A agência havia feito um trabalho exemplar.
Chegaram a Santiago esgotados. Tiveram um compromisso na sexta, véspera da viagem, e da sexta para o sábado não foi possível dormir mais do que uma hora. Felipe e Rita os levaram ao aeroporto de São Paulo e, num prego de fazer inveja a maratonistas em final de jornada, começaram sua trigésima segunda lua de mel.
Santiago era uma cidade grande, com seus seis milhões de habitantes. Cansados e sem saber ao certo para onde ir, pegaram um táxi e foram a um shopping perto do hotel. Jantaram um lanche horrível e, muito cedo — talvez antes mesmo das galinhas — já dormiam como dois bebês.
No dia seguinte, o já manjado city tour.
Com ele tiveram uma ideia da história da cidade e souberam de detalhes interessantes de sua arquitetura. Por fim, foram deixados em um shopping chamado Parque Arauco, ou coisa parecida, que tinha uma área de lazer aberta, com cinemas e restaurantes fora do corpo principal do shopping, o que tirava aquela sensação de confinamento e templo do consumo.
No dia seguinte é que começou a viagem de verdade.
O avião pousou em Puerto Montt, a cidade grande da região, com cerca de duzentos mil habitantes. À tarde chegaram a Puerto Varas, uma cidade pequena, de cerca de quarenta mil habitantes.
De qualquer ponto de Puerto Varas se avistava o Lago Llanquihue e o Vulcão Osorno, cuja metade superior estava sempre coberta de neve. O lago, um dos maiores do mundo e o maior da América Latina, dava a nítida impressão de estarem à beira-mar. Não se via a outra margem, e a beleza era realmente impressionante.
Naquela tarde foram à locadora pegar um filme chileno para assistir à noite, depois do jantar. Estavam em uma minúscula cidade, com um frio de fazer pinguim tremer, e já haviam passeado por todos os pontos interessantes três ou quatro vezes.
Durante o passeio pela cidade, Wilma não parava de apontar umas varetas verdes enterradas em todos os lugares possíveis: canteiros, calçadas, passarelas. Dizia que eram roseiras e que, na primavera, a cidade deveria ficar linda. Para Derico, não passavam de varetas verdes espetadas pelas ruas.
Na locadora, foram atendidos por um adolescente. Depois de localizado o filme que Derico queria, Wilma chamou o rapaz e perguntou:
— Por favor, de que color são las rosas?
O rapaz olhou para ela com cara de interrogação. Ela insistiu:
— Las rosas, de la rua, de que color são?
Falava e apontava pela porta. O rapaz, que não fazia a menor ideia do que era “la rua”, olhava para fora tentando encontrar algo colorido que talvez estivesse assustando Wilma.
Sem entender direito, mandou que ela procurasse na prateleira de ficção. Derico, adorando a situação, assistia de camarote. Achou que o rapaz a mandou para a ficção por considerá-la meio ET.
Ela insistia:
— Las rosas de la rua, de que colores são?
O rapaz olhou para Derico. Ele fingiu que nunca tinha visto Wilma na vida e, para complicar, fez cara de quem talvez achasse que ela não fosse muito boa da cabeça. O rapaz olhava pela porta, não via rosa nenhuma, e aquela mulher insistia, insistia.
Num lampejo de lucidez, ele repetiu a palavra:
— Rosas?
Wilma pareceu se acalmar. O rapaz olhou para Derico com a expressão de “cada coisa que aparece aqui”, e ele, fazendo cara de cúmplice, ria por dentro.
O episódio foi assunto para o resto da tarde. E assim foram passando o dia vendo as rosas rosas de Wilma e lembrando a cara de espanto do pobre adolescente.
No dia seguinte, sob uma chata chuva fina e constante, fizeram um passeio incluso no pacote: uma visita a Frutillar, outra minúscula cidade da região. O passeio foi feito apenas por eles e o motorista da van.
Derico não viu nada de especial, salvo os trechos que circundavam o lago. Wilma, no entanto, parecia ter voltado aos velhos tempos em que se encantava com qualquer coisa em qualquer viagem. Mostrava entusiasmo com a mais singela atração.
No caminho, fez o motorista voltar um bom trecho de ré para poder tirar fotos de uma macieira com uns míseros frutos pendurados, afirmando que o pé estava carregado. Derico insistiu para que ela ao menos saísse na foto, alegando que árvore é tudo igual. Mas seus olhos brilhavam como se a fotografia fosse levar a planta e seus frutos para a distante cidade de Campinas.

WILMA E SUA MACIEIRA CARREGADA
Depois de muito rodar, pararam em um museu da época da colonização alemã, que, como o restante do passeio, não tinha nada de interessante. Wilma não via assim. Apesar da chuva, estava encantada com tudo: das plantas que cercavam o lugar aos velhos móveis, nada diferentes dos que se veem em qualquer museu. Aliás, na casa da sogra de Derico havia coisas mais antigas que as peças chilenas exibidas ali.
A parada para o almoço foi outro ponto de verdadeira emoção para Wilma. Quando soube que o almoço estava incluso no pacote, Derico já se preparou para comer mal. O anúncio de carne de javali na brasa, ao invés de animá-lo, reforçou a certeza de que tudo seria uma porcaria.
Não deu outra.
Era um self-service de beira de estrada, com comida ruim, sem opção para semi-vegetarianos como Derico, e com atendimento sofrível. Wilma, além de elogiar o tal javali na brasa, saiu fotografando tudo pela falsa fazenda onde ficava o restaurante. Entre as fotos, não faltou a de um cachorro dormindo.
— Mas Wilma, você tirou foto de um cachorro magro, feio, sem graça e ainda por cima dormindo.
— Não é um cachorro, é um perro! — retrucou, cheia de razão.
Derico disse que ia deletar a foto e foi ameaçado de morte lenta e dolorosa.

EL PERRO DE LA WILMA
À noite, depois de encerrado o martírio de Frutillar, foram a um restaurante especial indicado pela guia, onde tiveram atendimento de primeira e comida deliciosa. Lá encontraram um casal de gaúchos, Sérgio e Juliana. Eles também haviam feito o passeio a Frutillar no dia anterior. Juliana disse ter gostado; Sérgio, outra vítima inocente como Derico, confessou que preferia ter ficado no hotel ajudando na faxina ou, quem sabe, aproveitado o tempo para fazer um tratamento de canal.
No dia seguinte alugaram um carro e foram subir o Vulcão Osorno. Aí sim, um passeio de primeira grandeza. O simples fato de dirigir já dava a Derico uma sensação de liberdade impagável. Soma-se a isso a paisagem deslumbrante ao longo dos quarenta e cinco quilômetros em volta do lago até o pé do vulcão.
Apesar da temperatura entre seis e dez graus, o dia estava ensolarado, o que trazia um colorido especial a tudo. Derico achava que, com sol, até o perro e a macieira de Wilma ficariam mais charmosos. Quanto ao javali na brasa, nem com o sol do Rio de Janeiro.
Depois de alguns quilômetros de estrada sinuosa, começaram a surgir os primeiros sinais de neve. Para eles, grande novidade. A neve foi se avolumando até o ponto em que o carro não subia mais. Seriam necessárias correntes nas rodas. Pararam a cerca de um quilômetro do ponto máximo e seguiram a pé, pisando na neve como nos filmes.
Chegaram a um pequeno restaurante que serve de apoio a esquiadores, alpinistas e turistas barrigudos como eles, que só comem e bebem.

NA PARTE SUPERIOR O PEQUENO RESTAURANTE DE APOIO
Diante do majestoso vulcão coberto de neve, Wilma estava em estado de graça. Tirou mais de duzentas fotos naquele dia e demonstrava uma alegria incontida. Desta vez, Derico sabia que até ele havia sido tocado pela maravilha que a natureza pode proporcionar.
Até mesmo chilenos e outros turistas acostumados à neve ficavam mudos ao chegar ali. Foi um dia especial.
Na descida do vulcão, almoçaram em um restaurante charmoso à beira do lago, com a inevitável vista para o gigante adormecido.

O RESTAURANTE NÃO APARECE. PREFERIMOS O OSORNO
No dia seguinte começaria o ponto alto do passeio: a travessia dos lagos rumo a Bariloche, na Argentina, pelo coração da Cordilheira dos Andes. A travessia foi feita em duas etapas: uma pelo lado chileno, com pernoite em Peulla, uma cidade de 120 habitantes; outra pelo lado argentino, com apenas uma parada para almoço.
Não dava para dizer qual lado era mais bonito. O certo é que mal se percebia a passagem do tempo diante de tanta coisa a contemplar.
Merece registro um incidente ocorrido nesse trecho: Derico e Wilma foram atacados por alguns terroristas no meio da viagem. Tudo, porém, foi controlado pacificamente, sem mortos ou feridos.

TERRORISTA: NOTE SEU OLHAR FRIO E PENETRANTE
Um dos terroristas, antes de ser preso, tentou fazer careta para intimidar los carabineros, mas foi em vão.

TERRORISTA INTIMIDANDO A LOS CARABINEROS
Depois dessa aventura, chegaram a Bariloche e, dali em diante, a viagem seguiu como férias normais: deliciosa, mas sem grandes episódios dignos de nota.
Merece comentário, porém, um fato anterior que se refletiu em Bariloche. Antes da viagem, estavam em uma animada reunião de condomínio quando o seu João, um velho meio gagá que costumava abrir o zíper da calça ao sentar, levantou-se às pressas e, de relance, Derico viu sua bunda.
Cochilava na reunião, e aquela imagem peluda e horrível o assombrou por um bom tempo.
Pois bem. Passeando por uma calle de Bariloche, Derico viu numa vitrine uma cópia fiel da bunda do seu João. Para registrar o trauma, tirou uma foto que, embora desfocada, dava boa ideia da razão dos seus pesadelos.

A BUNDA DO SEU JOÃO
Derico poderia terminar falando do passeio obrigatório ao Cerro Catedral, com seus inúmeros teleféricos, da viagem a Llao Llao, que eles pronunciavam “jau jau”, ou do erro de caminho que os levou a um lago belíssimo antes de chegarem a Villa La Angostura — que, no fim das contas, não tinha nada demais.
Poderia ainda falar do show de tango na Casa de los Angelitos, regado a um jantar à luz de velas.
Mas preferiu terminar com o hotel de Buenos Aires.
Na véspera do fechamento do pacote, Derico e Wilma assistiam a um filme da série Bourne em que o personagem se hospeda em um hotel horrível em Madri, chamado Hotel de la Pax. Wilma perguntou se Derico estava se certificando de que ficariam em hotéis razoáveis. Ele respondeu que tinha feito recomendações à agência, mas não sabia nada ao certo.
No dia seguinte, fechando o pacote, Derico notou que o hotel de Buenos Aires tinha quase o mesmo nome da pocilga do filme: Hotel de la Paix. Brincou com a moça da agência sobre a coincidência, mas era um sinal.
A despedida, em matéria de hotel, não foi nada agradável. Se alguém for a Buenos Aires, que passe longe desse alojamento de segunda. O banho, segundo a definição de Wilma, era em um tanque. O vaso sanitário demorava três dias para dar descarga e mais oito para encher a caixa. O café da manhã era de forçar dieta até em glutões.
Para completar, Derico ligou a televisão e viu uma novela antiga em que a gloriosa Vera Fischer era dublada e falava em “argentino”.
Foi de ferrar.
Só não foi pior que a bunda do seu João.
Campinas, 10 de setembro de 2007
Clériston Santos