Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

Ricardo sempre teve companhia para ir ao cinema. Sempre a mesma companhia. Por anos a fio trocaram comentários, críticas e até confidências, tendo como mote o filme assistido.

Pois bem, por revezes da vida Ricardo foi, pela primeira vez, sozinho ver um filme. É claro que, mesmo antes dos tais revezes, algumas vezes fora sozinho ao cinema; no entanto, Elizabete, ainda que ausente, estava em seus pensamentos e, mesmo sem a presença física ao lado, ela estava ali, firme como uma rocha, pois na primeira oportunidade conversariam a respeito do filme, dos sentimentos por ele provocados e por aí afora.

Mas ontem não. Ontem Ricardo não tinha mais a companheira nem no cinema, nem o esperando em casa, nem em parte alguma.

Ontem, depois de séculos, foi ao cinema realmente sozinho.

Interessante como uma expressão de uso comum se encaixa como uma luva nessa primeira aventura solo. Ontem Ricardo se sentiu como um piolho em uma peruca.

Usamos esses ditos populares, não raro, sem prestar atenção em seu sentido literal. Imagine a situação do pobre piolhinho. O coitado viu a peruca, pulou em cima e pensou eufórico:

— Agora estou feito na vida. Aqui criarei meus filhos, meus netos e, pela fartura existente, aqui me aposentarei.

No entanto, a cada fio a que ele chegava era uma decepção.

Ricardo ficou pensando quantas vezes o piolho rodou a peruca inteira antes de se dar conta de que tinha caído num engodo. Era assim que ele se sentia no cinema.

Ele tinha a firme convicção de que cinema fosse uma diversão solitária. Você entra na sala escura, fica em profundo silêncio e deixa-se transportar para outros mundos. Pelo preço de um ingresso, você vai a planetas e épocas distantes. Vive impensáveis maravilhas para um cidadão comum.

Ricardo nem sabia que trocava tantas informações durante um filme. Nunca conversavam durante as sessões, mas um olhar em determinadas cenas, um gesto, um suspiro diferente estabeleciam uma cumplicidade que ele não suspeitava existir.

Diante de uma fotografia bonita, um simples gesto chamava a atenção do outro que, porventura, estivesse menos atento. Numa cena mais forte ou sentimental, suas mãos entrelaçadas se apertavam um pouco, indicando que ambos foram tocados. As emoções da tela eram vividas simultânea e mudamente por eles.

Era muito gostoso também um comentário qualquer dito bem baixinho ao ouvido. Apenas uma palavra ou uma frase, tipo:

— Acho que este cara está escondendo alguma coisa.

— Rã... rã...

Não significava muito em relação à trama, mas era gostoso. Talvez fosse o hálito quente ao ouvido ou, ainda, saber-se próximo de alguém muito querido, não sei... Mas fazia bem. Muito bem.

Ontem Ricardo sentiu muita falta de tudo isso.

Assim como o nosso amigo piolho, que aparentemente estava no lugar e na hora certos aguardando seguras alegrias e, na verdade, não estava em lugar algum, assim também estava ele no cinema.

O esperado escurinho estava lá, o chocolate Diamante Negro estava no bolso, a poltrona escolhida era em excelente localização, o filme era de primeira qualidade, mas não havia o principal — que ele, na sua ingenuidade, achava ser secundário.

Ontem Ricardo era o piolho na peruca, buscando compartilhar emoções com uma cadeira vazia ao seu lado.

Grande parte da beleza do filme se perdeu por falta desse detalhe que os cineastas não vendem junto com o ingresso.

É claro que, no dia seguinte, comentou o filme com os amigos. É claro que falou da iluminação, da música... Mas nada substitui o suspiro na hora daquela cena especial, nada substitui aquele sentir junto, aquele compartilhar, aquele viver ao mesmo tempo a mesma emoção.

Os revezes da vida levaram-lhe mais do que imaginava.

Ricardo espera que, como num daqueles bons e antigos filmes, a vida lhe traga outras compensações ou outra cúmplice. Ou, quem sabe ainda, como numa melosa novela mexicana, descubra que estavam sendo há anos drogados por um daqueles vilões que querem dominar o mundo e que secretamente lhes ministrava um veneno terrível que os fez ser diferentes de quem realmente eram.

Ou talvez um deles tenha sido trocado pelo irmão gêmeo invejoso e mau e, agora, tudo se esclareça.

Nos novelões mexicanos, os vilões sofreriam amargamente e eles, no último capítulo, agora sim o par verdadeiro, como antigamente, voltariam ao cinema para ver uma daquelas superproduções que sugerem milhares de apertos de mãos, suspiros, sussurros ao ouvido e, talvez, ainda, lágrimas disfarçadas ao final.

Campinas, 7 de maio de 2004

Ricardo e Liz, são amigos queridos.

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/03/2026
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