Sentimento interessante a saudade. Não é de tudo que a gente gosta que a gente sente saudade. Além de gostar, temos que sentir um “quê” a mais.
Ricardo, por exemplo, apesar de gostar da cidade de Natal, não tem saudades de lá. Já do Rio de Janeiro ele tem saudades.
Talvez seja porque vai com certa frequência ao Rio e, além de gostar, haja uma outra coisa, uma outra ligação entre a cidade e ele que não sabe definir.
Mas o fato é que Ricardo tem saudades do Rio.
Tem saudade de andar pelas ruas de Copacabana, de caminhar pelo calçadão, do chope naqueles bares à beira da praia e coisas assim.
Saudades.
A gente tem saudade também do tempo.
Ricardo explica: tem saudade da juventude.
Aquela turma de cabeludos vestidos com as exageradas roupas dos anos 70.
Das meninas, dos bailinhos, da leveza, do descompromisso com a vida.
Tem saudades dos tempos em que havia crianças em casa.
Ele era o “pai”, o senhor de todas as respostas.
Era forte, valente, altivo.
Que saudade!
Com todos esses predicados passava os domingos inventando brinquedos e passatempos com a molecada.
Era gostoso!
Há também saudade de sabores.
Onde foi parar uma pizza especial que comia não sabe onde, não sabe quando, não sabe com quem e que tinha um sabor que também não sabe definir?
E agora?
Está só na memória e na saudade.
E a saudade dos tempos de namoro?
Aquele friozinho na barriga à espera da namorada que viria para o cinema.
A saudade daquele momento em que Elizabete chegava, com um lindo sorriso no rosto, toda arrumada, toda cheirosa, só querendo agradar.
Saudade daquele abraço, daquele beijo, daquela voz, daquela sensação gostosa no peito...
Que coisa boa!
Que saudade boa!
Pois bem, ontem Ricardo saiu de casa em Campinas e foi para São Paulo.
São míseros noventa quilômetros.
Hoje, ao acordar no hotel, frio como os hotéis podem ser, se pegou com saudade de Elizabete.
É isso mesmo, deixara-a há poucas horas e já estava todo saudoso.
Era ela, a mesma que lhe trazia a saudade do longínquo tempo em que era apenas sua namorada.
Provocava agora a saudade de poucas horas e parcos quilômetros.
Não dá para entender os sentimentos da gente.
É possível que, se Elizabete estivesse ali, Ricardo estivesse ligeiramente incomodado em dividir o tempo do chuveiro e o armário pequeno.
Talvez se incomodasse em ter que esperar alguns séculos até ela se arrumar para o café da manhã como quem vai a um jantar de gala.
Mas o fato de ela não estar ali lhe deu saudade.
Pegou o telefone.
Conversaram um pouco sobre absolutamente nada que justificasse o interurbano.
Afinal, ontem, antes de ela ir para a cama, Ricardo saíra de casa e em menos de duas horas já estava em São Paulo.
Não havia nada de novo.
Não havia muito o que falar.
Mas, mesmo pelo fio do telefone, a voz de Elizabete parecia acalmar um pouco a saudade.
Coisa estranha.
Coisa gostosa.
Coisa boa.
São Paulo, 5 de junho de 2008