Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
TELEFONEMA 🟡㉝
Eric estava tranquilamente jantando e tomando uma sagrada cervejinha quando o telefone tocou.
— Alî!
— Pai... Liguei para dar uma notícia sensacional...
Era a Madalena.
— Oi, filha! Tudo bem?
— A Lira aprendeu a andar... — falou entusiasmada.
Eric ficou sem saber o que dizer. Nunca sabia o que se dizia em aniversårios, enterros, nascimentos e, agora descobria, quando crianças aprendem a andar.
— Que legal, filha...
Nada lhe vinha à cabeça. Serå que deveria perguntar se ela andava com os dois pés? Se tinha freio ABS? Se foi no primeiro ou no segundo tempo? Seu pobre cérebro trabalhava incansavelmente.
— VocĂȘs estĂŁo de parabĂ©ns...
Pensou imediatamente: “Que frase mais idiota.” Imaginou que a menina ficaria frustrada com o pai.
— Pai, ela não para um segundo, vai do quarto para a sala, da sala para a cozinha, está eufórica com a novidade.
— Que bonitinha! — disse Eric, sem muita convicção.
Nesse meio-tempo, percebeu que Rose havia parado de jantar e estava atenta Ă  conversa. Sem avisar nenhuma das duas, Eric passou o telefone para a esposa, que, completamente Ă  vontade, disse:
— VocĂȘ saiu para trabalhar e quando voltou ela jĂĄ estava andando?
Eric pensou: “Por que eu não disse algo assim? Como sou burro...”
Rose continuou:
— Que gracinha, aprendeu faz dez minutos?
E as duas se enrolaram em um papo sobre sapatinhos, botinhas e uma sĂ©rie de outros “inhos”. Eric ficou ali calado, perdido em seus pensamentos.
Aos poucos, foi lembrando que um dia, hå mais de vinte anos, chegara do trabalho e Rose não veio beijå-lo como de costume. Parou a uns quatro metros, com a Madalena pequenininha de pé entre suas pernas e, de repente, a soltou. A menina andou até Eric com seus primeiros e inseguros passos.
Eles eram tĂŁo jovens... Tinham tantos sonhos.
Eric nĂŁo se lembrava da maioria desses “tantos sonhos”, mas achava que um deles era justamente este: o de ter netos e vĂȘ-los dar alegrias como aquela a seus filhos.

Maio de 2000
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/03/2026
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