As notícias chegam como se saíssem de um conta-gotas:
— Engordou trinta gramas hoje.
— Ah! Infelizmente hoje engordou apenas cinco gramas.
É assim que Eric recebe as notícias. É assim que, como um espectador ou um torcedor de arquibancada, acompanha o desenvolvimento da pequena Lira.
Lira o esnoba, seguindo firme o caminho traçado pelos médicos. Parece ter uma meta a atingir e segue essa meta implacavelmente.
Brava criança!
Eric a viu apenas uma vez, e muito rapidamente, mas foi o suficiente para disparar algo novo em seu coração. Ela estava ali, dentro de uma caixinha de vidro, com tubos e fios em seu diminuto corpinho de pouco mais de um quilo. Impassível, como se estivesse à espera de algo grandioso que lhe pertence e que logo obterá a posse.
Brava criança, repete ele.
Eric crê que a pequena Lira herdou a coragem da mãe. A jovem mamãe de Lira tem uma força de arrepiar. Em pouco mais de seis meses, sua vida teve uma enorme reviravolta. Mal acabara de deixar a adolescência e se viu às voltas, num piscar de olhos, com uma casa, com um emprego, com um marido e com uma gravidez. O dinheiro do emprego, há que se lembrar, não se destina a CDs e cosméticos — nem pensar em tal possibilidade. É pouco dinheiro, mas muito importante para a manutenção da nova família. Não foi pequena a mudança. Não foi pequena a virada. Não foi nada, nada fácil.
Para entornar mais um pouco o caldo, a gravidez terminou antecipadamente numa madrugada de dezembro. Lira, inconformada com a demora, resolveu dar o ar da graça antes do prazo. Foi a sua primeira travessura. Danadinha, já mostrou a que veio.
Agora a jovem mamãe enfrenta a dura batalha de sair do hospital e deixar a filha em meio a agulhas, soros e mil outras coisas de nomes estranhos e utilidades ocultas. Mas enfrenta tudo com uma tranquilidade, uma força, uma coragem de dar inveja.
Cada uma, mãe e filha, a seu modo, traz a Eric imagens diferentes. A pequena Lira lhe parece um atleta em concentração. Fica ali solitária, preparando-se para o grande dia em que irá mostrar tudo o que é capaz. Parece acumular mais e mais energia para que, no momento apropriado, vá dizimar tudo e todos, conquistando o lugar mais alto do pódio.
A jovem mãe de Lira, por sua vez, faz Eric lembrar um touro. Um touro enorme, de muitas toneladas, que, com suas patas firmes, corre em câmera lenta sem se importar nem um pouco com os obstáculos que ousam cruzar seu caminho. O touro segue avante, derrubando tudo e abrindo caminho com seu vigoroso peito de ferro e aço.
Eric não sabia que era tão forte esta menina. Não desconfiava ter sob suas asas alguém com tamanha coragem. Logo ele, que por vezes temeu tantas coisas, que não raro ocultou uma lágrima incontida, logo ele ter ajudado a forjar tão firme têmpera.
O peito de Eric se infla de orgulho dessas bravas meninas. Avante, crianças. Eric as admira e torce por elas.
Campinas, 23 de dezembro de 1998.