Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

Antes de o relógio despertar, eu já estava acordado. Era dia de levar uma jovem mãe para trazer ao mundo mais uma criança. Havia, é claro, uma natural ansiedade misturada com uma sensação de alívio para aqueles que vinham acompanhando o longo processo de gravidez.

Chegamos ao hospital e ela vai para o centro cirúrgico.

Ficamos ali, esperando quirelas de informações que não chegam.

De outras mamães, que, a nosso ver, tinham ido séculos depois, já tinham sido enviados nacos enormes de notícias.

E nós ali, nem umas pobres migalhas amanhecidas.

Finalmente, a autorização para ir ao berçário e, por apenas alguns minutos, ver, pelo vidro, o novo habitante deste conturbado planeta.

— É o nenê nº 88 — diz o guarda.

Subimos e, enquanto procurávamos dentre os vários bebês, alguém, apontando uma criança, me diz:

— Deve ser aquela ali. Ela acabou de chegar.

Eu não tive nenhuma dúvida.

Não precisei olhar o número na pulseirinha.

Fiquei ali olhando a recém-nascida como se estivesse diante de um fantasma, um anjo, uma divindade.

Fiquei imóvel.

A respiração suspensa.

Os olhos fixos, como se um poderoso ímã estivesse me atraindo.

Minha companheira falou um milhão de coisas.

Que a menina era linda.

Que parecia alguém.

Que era grande.

Que era sei lá o quê.

Suas palavras me soavam longe.

Eu estava hipnotizado.

Sem palavras.

Sem comparações.

Sem fôlego.

Ela foi até a enfermeira perguntar coisas práticas.

Peso.

Tamanho.

Documentos.

Registros.

Números e mais números.

E eu ali.

Mudo.

Bobo.

Parado.

Sem saber o que fazer.

Sem saber o que dizer.

Sem entender nada do que se passava comigo.

Que sentimentos novos são estes?

Esta é a quinta criança que vejo nascer.

Não há mais razão para abobamento.

Mas os sentimentos a razão não explica.

Os laços eternos e invisíveis aos olhos, do coração não se escondem.

E o que pelo coração se passa é difícil em palavras transformar.

Só no dia seguinte voltei ao normal.

No dia do nascimento, depois que a vi pela primeira vez, fiquei meio entorpecido.

Conversei com as pessoas.

Recebi parabéns.

Dirigi o carro.

Tomei banho.

Jantei.

Enfim, agi normalmente.

Mas apenas no dia seguinte me recuperei.

Depois que vi pela primeira vez a menina, virei meio que um zumbi.

Minhas lembranças daquele dia são meio esmaecidas.

Meio lentas.

Às vezes sinto que se assemelham às lembranças de um grande porre tomado no dia anterior.

Fico com um leve temor de ter agido de forma estranha com alguém.

Como se, naquele dia, eu não estivesse senhor dos meus atos.

Como se, para me proteger de enormes emoções, alguém tivesse me dopado.

Seja bem-vinda, garotinha.

Todos nós já te amamos muito.

No meu caso, amo você mais do que eu mesmo supunha.

É mais uma surpresa para quem achava que já conhecia todos os sentimentos e já havia vivido todas as emoções.

Agradável surpresa.

Campinas, novembro de 2001

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 02/03/2026
Alterado em 07/03/2026
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