Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

CÂMARA ESCONDIDA

 

 

 

 

A Sarah foi viajar. Uma semana fora de casa.

No caminho para o aeroporto ela dirigia e eu ia no banco do carona. Olhando pela janela, falei:

— Poxa, dessa vez você não deixou nadinha pra eu comer.

— Ué, você nunca come. Prefere lanche e restaurante — respondeu sem tirar os olhos da estrada.

Continuei:

— Estou pensando em contratar uma cozinheira por estes dias…

Não pude terminar. Ela tirou os olhos da estrada e me deu uma fulminada digna de um avião de caça americano ou israelense, sei lá.

Lembrei do Adoniran Barbosa:

 

“Seu olhar mata mais que bala de carabina

Que veneno estricnina.”

 

Ela voltou a olhar para a estrada e o rosto foi suavizando — de veneno estricnina para quase veneno de rato — até surgir um sorriso... falso:

— Imagino os requisitos que você vai exigir… — ela falou olhando a estrada

— Ué, normal…

— Sei bem… número do sutiã, tamanho da bunda…

Interrompi me fingindo indignado:

— Nada disso! Exijo o básico!

— Sei qual é o seu básico. Saiba que estou de olho. Esteja onde eu estiver, vejo tudo por uma câmera escondida.

Rimos e lembramos da série policial que estamos assistindo onde câmaras e escutas são utilizados à exaustão.

Volto pra casa, lembro da brincadeira e fico pensando.

Existem câmeras que cabem na ponta de um canudo. Vendem na internet.

E se for verdade?

Não faço nada errado, mas não gostaria de ser observado por câmaras escondidas. Pensando melhor, não gostaria é fraco, não pode ninguém me olhar secretamente. Isso está fora de questão.

Quando estou sozinho, ando pelado pela casa. Não é nada absurdo. Calor, ninguém pode ver dentro de casa. Não me preocupo com roupas.

Também costumo soltar puns em qualquer lugar.

Quando eu era menino, na quarta ou quinta série, tinha um grupinho de amigos. A gente soltava puns e dava nomes a eles. Secretamente faço isso sozinho. Às vezes solto um especial e comemoro: este foi seguramente um Alfredão. Comemoro em grande estilo, pulando com as mãos levantadas como se fosse um gol.

Se, por acaso a Sarah ver um negócio deste, certamente ela iria preferir a cozinheira. Mas é claro que a gente estava brincando e a Sarah não entende dessas coisas de informática e não faria isso.

 

******************************

 

Algumas horas depois…

Estou trancado no banheiro de casa, onde é impossível ter câmaras, falando com uma equipe de seis engenheiros do lado de fora.

— Tem certeza? — pergunto com voz trêmula.

— Moço, o equipamento é de última geração. Não há câmera escondida em lugar algum da sua casa. Conferimos três vezes.

Saio ainda desconfiado, pago tudo direitinho e eles vão embora.

Estou indo do quarto para a sala quando um pum se aproxima.

Paro imediatamente e, apesar dos técnicos, fico com medo. Foi nesta hora que me ocorreu algo que eu tinha deixado passar. A empresa fica a cinco quadras de casa. É muito perto.

E se a Sarah contratou a mesma?

Eles saberiam onde estariam as câmeras. Claro que me enganariam.

Agora não sei se ligo para outra empresa… ou para o meu psiquiatra.

 

Campinas, 23 de fevereiro de 2026

 

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 25/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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