Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
ALGODÃO NO NARIZ 🟡㉑
Estávamos em uma longa viagem de carro, a Sarah e eu. Já tínhamos falado sobre todos os assuntos possíveis e, não sei por qual motivo, começamos a conversar sobre morte, enterros e coisas assim. Era uma conversa normal, mas, quando passamos a falar sobre velório, vestimentas e adornos, a Sarah foi se alterando. Ela ria bastante, mas eu podia perceber que o assunto era meio sério para ela.

  — Eu acho um absurdo esse negócio de ficarem com o morto esperando até o dia seguinte para enterrar — falou em tom forte.

  Rindo, tentei explicar as razões da espera, mas ela me interrompeu:

  — Quando for minha vez, não quero que esperem nada. Enterrem logo. Aliás, eu quero ser cremada.

  — Mas, Sarah, e suas irmãs que vêm de longe, querem te ver — falei rindo.

  — Ninguém tem que ver nada. Já estarei morta mesmo. Estarei lá, toda dura, no caixão...

  Nesse momento, ela se lembrou do algodão e sua indignação chegou ao clímax. Falou quase gritando, enquanto eu não me continha, dirigindo e rindo convulsivamente:

  — E não quero saber daquele negócio de algodão no nariz. Que coisa horrorosa... aqueles defuntos com aquele monte de algodão saindo pelo nariz! — fazia uma cara de asco.

  Para provocar, falei:

  — No nariz é onde você vê, mas eles colocam algodão em todos os buracos do corpo — falei gargalhando.

  Ela não se deu por vencida.

  — Os outros não importam, o do nariz é muito ridículo. Minha amiga morreu jovem, bonita, era tão vaidosa, usava batom vermelho. Morreu e, no dia seguinte, coitada, lá estava ela naquela situação, com o nariz cheio de algodão...

  Quase tive que parar o carro para rir. A cara dela era impagável. Eu já conhecia a história da tal amiga; só o detalhe do algodão no nariz é que era novidade.

  — E a roupa? — ela continuou, indiferente às minhas risadas. — As roupas são só na parte da frente. Por trás daquelas flores, a pessoa está pelada, com a bunda no caixão gelado.

  Tudo isso era falado em tom forte, incomum de se ver na Sarah. Ela ria, mas era muito enfática. Queria que eu prometesse que, se ela morresse primeiro, eu a enterraria o mais rápido possível — ou, melhor ainda, que a cremaria.

  O caixão era para ser lacrado e ter apenas um vidrinho na altura do rosto e, em hipótese alguma, nada de algodão no nariz.

  Tentei diversas vezes explicar que havia regras a serem seguidas, parentes que vinham de longe, um tempo mínimo de velório. Mas ela não ouvia: me interrompia e repetia a história do algodão no nariz incessantemente.

                                                                                            Campinas, julho de 2016
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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