EU IMAGINEI 🟡⑳
— Então o senhor bateu em sua mulher por causa de um simples bolo.
— Não doutor. Não é bem assim. Ela apanhou por causa de princípios. Por causa da honra, por causa da honestidade. Por bens perdidos ao longo das últimas gerações.
O homem falava apenas ao delegado, mas parecia estar se dirigindo a uma plateia. Parou um pouco e ficou olhando para cima como a buscar dados na memória ou maneiras de se expor.
— Eu tirei o bolo Pullman de cima do armário e coloquei sobre a pia. Apenas isso doutor, foi só o que eu fiz.
— E então, seu Fernando, o que aconteceu em seguida.
— Eu coloquei o bolo ainda lacrado sobre a pia e fui para a sala. Viviane chegou na sala, me olhou com aquela cara de quem condena o pior criminoso e disse:
— Você já comeu bolo, portanto, não quer comer mais nada, não é?
— Eu??? — perguntei assustado — comi que bolo?
— O bolo pullman que você destroçou em cima da pia, não se faça de santinho.
— Doutor, eu comecei a perder as estribeiras naquele momento. Será que eu estava ficando louco? Será que alguém havia invadido a minha casa naqueles cinco minutos só para comer bolo? O que estaria acontecendo? Cheio de dúvidas, perguntei a ela:
— Você tem certeza que o bolo que está na pia está aberto? Certeza? Certeza?
— Veja bem doutor— ele interrompia o relato se dirigindo ao delegado— dei todas as chances para que ela voltasse atrás, se redimisse.
—Tenho sim. Tenho certeza —ela respondeu— e ainda está cheio de migalhas em volta do bolo, migalhas pela pia e migalhas por todo o chão da cozinha.
—Eu me levantei devagar doutor, devagar mesmo. Tinha medo do que ia ver. Fui até a cozinha e ela me seguindo, me acusando, me condenando, doutor.
O delegado acompanhava o relato recostado em sua poltrona de espaldar alto. Era um homem de feições endurecidas por penosas batalhas, tinha uma discreta cicatriz no queixo, cabelos levemente grisalhos e usava um óculos ray-ban, mesmo tendo cortinas em sua sala, talvez para disfarçar parte de suas expressões.
—Cheguei ao lado da pia e encontrei o bolo intacto, lacradinho da silva, do mesmo jeitinho que eu o havia deixado ali — continuou Fernando com expressão de quem esmiúça um assunto— em volta do bolo e no restante da pia estava tudo impecavelmente limpo. A cozinha da mesma forma, sem nada, absolutamente nada de migalhas pelo chão.
O delegado acompanhava o relato agora com visível interesse.
—Aí, doutor, eu cheguei pra ela e perguntei: cadê o bolo com a embalagem destroçada? Cadê as migalhas pela pia? Cadê o chão todo sujo?
Ele interrompeu a história deixando um longo silêncio. Ajeitou-se na cadeira, encarou o delegado olhando firme em seus olhos ocultos pelo ray-ban e continuou:
—Sabe o que ela respondeu? Doutor.
—Não tenho ideia.
—Ela olhou pra mim, sem qualquer expressão, expressão zero, e respondeu:
—É, acho que me enganei.
—Acho? — respondi já pegando a frigideira que estava sobre o fogão— acho né?
—Ela não teve tempo de responder, doutor. Bati com a frigideira com toda a minha força em seu rosto. Foi uma pancada muito, muito violenta, doutor. Ela já sem sentidos deu alguns passos para trás, bateu as costas e a cabeça na parede e foi caindo no chão devagar, quase em câmara lenta, com sangue escorrendo pela cara toda.
O delegado estava perplexo, mas parecia pensar em algo distante daquela sala. Talvez vivesse situações parecidas e não tivesse tido coragem para acertar as coisas com uma frigideira.
— Cheguei perto dela ainda com a frigideira na mão. Ela já tinha se recuperado um pouco. Me abaixei e perguntei em voz bem baixa: eu não entendi direito. Você acha que se enganou? É isso? Você acha? Acha?
— Não, não é isso — ela respondeu com enorme dificuldade para formular as palavras, o fluxo de sangue a fazia tossir interrompendo a frase — eu vi apenas o bolo em cima da pia e o resto eu imaginei... imaginei... me desculpe, o resto eu imaginei.
— Foi então, doutor, que eu me levantei, peguei o telefone e chamei a ambulância.
O delegado abaixou a cabeça, tirou o ray-ban e coçou o queixo sem dizer uma palavra. Se algum policial amigo estivesse por ali, saberia que apesar de destemido e acostumado a enfrentar os mais perigosos bandidos, naquele momento ele se sentia um covarde. Um grandessíssimo covarde.
Campinas, 15 de dezembro de 2011
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 14/02/2026
Alterado em 07/03/2026