Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
DR. ANGELINO 🟡⑭
A cada dois anos, um dos familiares assume a presidência da empresa e, como esses presidentes geralmente não entendem nada das atividades cotidianas, os gerentes responsáveis pelo bom andamento dos serviços vivem às voltas com problemas impensáveis nas empresas concorrentes.

            Atualmente está no comando o Dr. Angelino. Na verdade, de anjo ele não tem nada. Trata-se de um homem de temperamento altamente explosivo, inteligência curta e autoestima quilométrica.

            Outro dia, o Adilson e a Márcia, gerentes de departamentos, tratavam com o Dr. Angelino sobre a construção de uma nova filial da empresa. O terreno já estava comprado, feita a terraplenagem e contratada a elaboração do projeto, que seria entregue em quinze dias:

            — Mande o pessoal simplesmente já ir começando a obra.

            O Dr. Angelino adora a palavra “simplesmente” e a expressão “vamos dizer assim”. Não perde oportunidade para simplesmente isso e simplesmente aquilo. É motivo de chacota geral. As pessoas têm que conter o riso em sua presença.

            — Perfeitamente, doutor — explicou o Adilson —, assim que chegar o projeto, a equipe estará a postos.

            — Simplesmente não quero esperar nada. Mande a equipe já, antes do almoço — vociferou o homem.

            A essa altura já estava vermelho, com as duas sobrancelhas grudadas uma à outra, sinal claro de que o seu pouco raciocínio já havia desaparecido e sua vontade seria imposta a qualquer preço. A Márcia, inocentemente, ainda tentou um argumento:

            — Dr. Angelino, não há o que fazer sem projeto...

            O presidente parecia que ia ter um ataque. Já começava a espumar, rosnava como um animal. O Adilson, mais acostumado a lidar com a família de presidentes, deu um cutucão por baixo da mesa na Márcia e disse em um tom calmo e tranquilo:

            — Okei, Dr. Angelino, vamos mandar a equipe para começar a obra imediatamente.

            Depois que saíram, a Márcia, visivelmente nervosa, perguntou ao Adilson o que a equipe iria fazer no terreno, e o Adilson disse apenas o seguinte:

            — Não esquente a cabeça. Não vamos mandar equipe nenhuma. Qualquer criança sabe que não há o que fazer sem o projeto. Amanhã ele já esqueceu. Aos poucos você aprende a tratar com essa gente.

            E, realmente, no dia seguinte o Dr. Angelino não se lembrava de nada e nunca mais tocou no assunto.

            Quando precisam resolver um caso mais grave, apelam para a Francis. A Francis é uma loira do departamento de compras que tem um par de seios tamanho cinquenta ou cinquenta e quatro e que, nas poucas vezes em que usa sutiã, é sempre uns dez ou vinte números menor que os seus seios. Além disso, suas blusas costumam ter um decote que chega perto do umbigo.

            Pois bem, quando o assunto é grave, ligam para a Francis:

            — Fran, amanhã vamos ter que tratar um assunto grave com o homem e sua presença é fundamental.

            — Pô, Adilson, outra vez...

            — Fran, quebra essa. Você sabe que só apelo pra você quando o caso é grave.

            A Francis já sabe. Deve vir com um decote especial, adoçar a voz e usar todas as armas que as mulheres dominam.

            Nessas ocasiões, são convocadas também as meninas que trabalham na recepção da presidência. Elas tiram tudo que está à frente da cadeira onde vai se sentar a Francis, de modo que nada atrapalhe o ângulo de visão do Dr. Angelino e, toque de mestre, regulam as cadeiras para ficarem mais baixas. Assim, o presidente tem uma visão de cima dos seios da Francis e assina tudo que os gerentes trazem sem perguntas cretinas.

            Na verdade, ele fica com aquela cara de bobo, vidrado nos peitos da Francis, pensando que ninguém percebe. Mas a Francis só é utilizada em casos realmente graves.

            A empresa fez uma parceria com uma ONG e patrocinou um curso de informática para cem crianças. Na semana seguinte será a formatura e contrataram um bufê para oferecer bolo, cachorro-quente e outras comidas que crianças gostam. Às vésperas do evento, descobriram que o bufê não traria refrigerantes.

            Pandemônio total.

            Foi o presidente que indicou o bufê e terão que perguntar a ele sobre que bebida servir. Qualquer um diria que é coisa simples. E realmente é, mas não com o Dr. Angelino na presidência. Nem pensar.

            Fizeram uma reunião de emergência. Os que conhecem menos o homem não entendem direito o que está acontecendo e, diante da dúvida da diretoria, sugerem logo que comprem sucos, refrigerantes e água. Não há o que inventar sobre isso. Mas quem conhece o presidente mais de perto sabe que não é assim que funciona.

            Até em convocar a Francis alguns pensaram, mas acharam que seria exagero.

            O plano era comprar o óbvio, mas fazê-lo achar que foi tudo ideia dele, aliás, como em qualquer decisão que precisasse ser tomada desde que ele é o presidente.

            Resolveram que iriam enfrentar o homem o Adilson e a Márcia.

            — Se deixarmos para ele decidir, tudo é possível. Temos que ir falar com ele com o assunto bem estudado.

            — Gente — disse alguém —, ele tem que achar que está decidindo, caso contrário ele é capaz de demitir alguém. Todo cuidado é pouco.

            Antes de entrar na sala, a Márcia faz o sinal da cruz e o Adilson uma rápida oração. Levaram outros assuntos de pura rotina para irem avaliando o humor do homem antes de tratarem do assunto da festa.

            — Bom dia, Dr. Angelino! Como tem passado o senhor?

            — Bom dia, pessoal! — respondeu o homem com expressão neutra.

            Colheram umas assinaturas, informaram algumas pendências e, em dado momento, o Adilson entrou no assunto como se fosse uma coisa simples:

            — Só o senhor pode nos ajudar em um probleminha com a festa das crianças.

            — Simplesmente, vamos dizer assim, o que aconteceu?

            — É que o bufê do Paulino não fornece bebidas e nós estamos pensando em refrigerantes, sucos de frutas ou água. O que o senhor acha?

            Da maneira como foi colocado, ele ficaria preso às três opções e não poderia inventar uísque israelense sem álcool ou Coca-Cola branca da Argélia.

            Momentos de grande tensão.

            O Dr. Angelino coçava a barba e se concentrava no enorme problema que tinha à frente. Adilson e Márcia aguardavam. Tudo era possível. A hora era crucial.

            — Refrigerante as crianças gostam — disse o Dr. Angelino com aparente calma, para alívio dos dois —, mas simplesmente não é ecologicamente muito correto.

            Ficou em silêncio olhando para os gerentes.

            O Adilson sabia que agora tinha que conduzir de modo a manter a calma do homem:

            — O senhor tem razão. Tem pais que nem deixam os filhos tomarem refrigerantes.

            Sabia que aquilo era ridículo, mas continuou:

            — Há também as opções do suco de frutas e da água.

            Era a deixa para o homem ter a ideia. E ele teve:

            — Por que simplesmente não servimos os três: refrigerantes, sucos e água?

            Conforme ensaiado antes, o Adilson e a Márcia se entreolharam, e a Márcia disse:

            — Como não pensamos nisso?

            O Adilson completou:

            — É mesmo, discutimos tanto esse assunto e ninguém teve essa ideia.

            O Dr. Angelino crescia na cadeira. Saboreava um momento de glória.

            — Hum... Sei não... Não tem lugar na mesa para tudo. Será que vai dar certo? — provocou o Adilson, conforme o ensaio.

            Dr. Angelino engoliu a isca com anzol, vara e tudo:

            — Coloquem simplesmente uma mesa a mais só para as bebidas.

            — Grande ideia, doutor — disse o Adilson.

            O Dr. Angelino parecia ter três metros de altura. Era o orgulho em pessoa, um verdadeiro pavão. Olhou para os dois e completou, fingindo desimportância:

            — É que vocês simplesmente não têm a vivência, o faro, a percepção das coisas. Vocês simplesmente, vamos dizer assim, esquecem de ver os detalhes.

            Ninguém acreditava que tinha corrido tudo tão bem. E sem a ajuda da Francis.

                                    Campinas, 6 de junho de 2008
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 13/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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