Que delícia é ser campeão! Partida final, estádio lotado, a explosão da vitória, a alegria dos torcedores, um grande sorriso passeando em todos os lábios.
Alguns expressam suas emoções de maneira diferente: há aqueles que choram, há os que pulam sem parar, há os que se sentam no chão e ficam simplesmente mudos, mas cada um, a seu modo, comemora e se emociona com o título.
O momento da formatura se assemelha muito à conquista de um título. Também há a sensação de alívio, de vitória, de triunfo. Na formatura também nos sentimos campeões. Ocorre que, como a formatura é solitária, individual, íntima, não podemos comemorar como um título no estádio; se pudéssemos, acho que muitos formandos atravessariam o campus de joelhos, pagando promessas antes inconfessáveis.
Mas, voltando ao futebol, há formas diferentes de ganhar um título. De maneira alguma isso interfere no significado da conquista, mas, para aqueles que acompanharam todo o campeonato e a partida final, o título pode ter um saborzinho a mais.
Seu time pode ir para a partida final precisando vencer e, aos dez minutos do primeiro tempo, faz um gol; aos trinta faz outro; no segundo tempo faz mais dois e é campeão. É uma delícia! Meia hora antes de acabar o jogo você já está comemorando, abraçando todo mundo, já não tem mais que torcer.
Há, no entanto, aquelas vitórias muito sofridas. Seu time igualmente vai para a final precisando vencer; está jogando melhor, mas o gol não sai. Vai bola na trave, o goleiro adversário defende tiros simplesmente mortais, e o jogo acaba indo para a prorrogação.
Além dos noventa minutos regulamentares, serão mais trinta minutos extras. Cardíacos não podem assistir partidas assim. A emoção pode ser fatal para corações já muito sofridos.
Pois bem, acaba a prorrogação e, nos acréscimos finais, o seu time faz o gol. Geralmente é uma bola chutada de longe que, desafiando as leis da física, faz uma curva e entra no gol. O estádio simplesmente explode. O grito de gol sai das entranhas. É um momento mágico. Irracional, é claro, mas talvez por isso mesmo é que seja mágico.
A sua formatura foi nos acréscimos da prorrogação. Quem acompanhou cada partida e o jogo final sabe disso.
No futebol, há a imponderabilidade. No começo do campeonato você não sabe se vai ou não ser campeão. Na faculdade há a certeza de vitória logo na matrícula. Você sempre sabe que, se for até o final e fizer tudo direitinho, sairá vitoriosa.
Será que é assim mesmo?
E se faltar o dinheiro para as mensalidades?
E se você perder seu emprego?
E se você ficar doente?
E se você ficar grávida?
E se ocorrerem separações, divórcios, despedidas?
Tais fatos trazem a imponderabilidade do futebol para todo o curso e dão à colação de grau o sabor de partida final.
Você venceu na prorrogação. Eu também e, por isso, olho para você com a cumplicidade de irmãos. Tem coisas que só irmãos sabem.
Acho que você nem pode ser comparada a torcedores, mas sim àquele jogador que fez o gol do título nos acréscimos da prorrogação.
Pois é, mana... parabéns. Vitória suada, sofrida, arrancada a fórceps, vitória com “V” maiúsculo.
Campinas, 9 de janeiro de 2004