Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
AMANDO 🟡⑬
Em sua lembrança, Sarah sempre teve dificuldade em perdoar.

  Se alguém a magoava, a irritava ou qualquer coisa do gênero, Sarah se afastava naturalmente da pessoa e não pensava mais no assunto. Tudo acontecia de maneira tão natural que ela nem se dava conta ao certo de como isso ocorria ou mesmo por que agia dessa forma. Era um mecanismo de defesa que funcionava bem.

  Acontece que Sarah queria ser mãe.

  Conhecedora da própria dificuldade, tinha medo de trazer alguém ao mundo e, como tantas vezes já acontecera com as pessoas em geral, se decepcionar, deixar de gostar do filho e, nesse caso, ser obrigada a uma convivência longa e dolorosa.

  Por um lado, a força brutal da natureza exigindo a maternidade; por outro, o medo, a insegurança.

  Atormentavam-na as lembranças de tantos e tantos desencontros, tantos e tantos choros, tantas e tantas noites de solidão e sentimentos de injustiça e abandono.

  Quando a natureza cumpriu seu curso e Sarah se viu grávida, passou a acreditar que com o filho seria diferente. Todos diziam que seria como um “kit”: junto com o filho viria o amor.

  Ela gestava uma criança e buscava desesperadamente gestar também o amor que ansiava sentir.

  Mas seu ventre crescia e ela não via o mesmo ocorrer quanto ao tão falado amor. Por vezes sentia medo e uma ponta de arrependimento. E assim se passavam os dias, as semanas, os meses.

  Finalmente chegou o bebê.

  Uma menina. Amanda.

  Quase o gerúndio do verbo que ela tanto buscava foi escolhido para o nome da filha.

  Amanda. Amanda. Amanda.

  Quando tomou Amanda pela primeira vez em seus braços, não sentiu o amor que esperava. Talvez pela ansiedade, talvez pela insegurança ou, quem sabe, apenas por ser um sentimento desconhecido. O fato é que ela não sentiu o que esperava.

  Foi para casa com aquele serzinho indefeso, exigente e que a cada segundo queria cuidados e atenção.

  Com o passar do tempo, Sarah foi sentindo algo diferente e poderoso tomar conta de seu ser. A cada dia sentia que precisava mais da Amanda do que a Amanda precisava dela.

  A cada dia, Sarah percebia que não fazia o menor sentido a palavra perdão, porque o amor está acima, muito acima disso.

  A cada momento, Sarah se percebia amando mais e mais Amanda.

  Sentia que, com a chegada da criança, seu coração havia sido dividido e metade pulsava em seu peito, enquanto a outra metade pulsava no pequeno peito da filha.

  Sarah amando Amanda.

  O amor não apenas chegou.

  O amor invadiu, assaltou, dominou o coração de Sarah e, a cada momento, crescia mais.

  Por vezes, Sarah se sentia sufocada de tanto amar. Temia explodir.

  Por vezes, sentia como uma deliciosa pontada no peito que a doce presença da criança tinha o condão de adocicar e encher de alegria.

  Ela nunca soube explicar muito bem como começou, como caminhou, como bateu o seu coração naqueles primeiros dias.

  Mas sabe dizer que foi e é bom.

                                                                            Campinas, 23 de fevereiro de 2015
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 11/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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