Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
FOTOGRAFIA 3X4 🟡⑫
Parar o tempo. Acho que é isto o que buscamos ao tirar uma fotografia. De alguma forma, queremos congelar aquela imagem para, no futuro, relembrarmos como era tal pessoa ou tal lugar. O poeta e o cronista tentam, com outros instrumentos, congelar os sentimentos vividos, congelar as emoções.

  Outro dia, mexendo em coisas antigas, deparei-me com algumas fotos de mais ou menos uns trinta anos. Eram fotos 3x4, em preto e branco, todas reunidas numa daquelas carteirinhas com a propaganda do fotógrafo. Lá estava meu pai bem jovem, minha mãe que, naquele momento, era pelo menos dez anos mais nova do que eu hoje. Lá estava minha irmã, lá estava eu com cabelos e bigode e, quem mais me chamou a atenção, a Rose, em foto com data denunciando seus dezesseis anos de idade. Cabelos muito negros, descendo bem abaixo do ombro, olhar meio distante e ingênuo. Lá estava minha namoradinha de outrora. Com um pequeno esforço, eu poderia ouvir sua voz e relembrar nossas esperanças e sonhos juvenis.

  Há uns cinco anos, minha irmã esteve em casa e, também mexendo em coisas antigas, encontrou uma foto que me retratava com mais ou menos nove ou dez anos de idade. Minha irmã olhou a foto, emocionou-se e, com os olhos vermelhos, disse:

  — Olha só! É o meu irmãozinho!

  Abraçamo-nos e ajudei-a a disfarçar a emoção. É um erro da nossa cultura disfarçar as emoções. Elas deveriam ser bem-vindas, deveriam correr soltas; são nossa verdadeira essência. Mas, como não é assim que funciona, ajudei a mana sem, no entanto, entender direito o termo “irmãozinho”, uma vez que eu sou o mais velho.

  Aquele “irmãozinho” ficou rodando na minha cabeça por um bom tempo. Agora, ao ver a Rose em preto e branco, com dezesseis anos, olhando para a câmera, relembro a história e entendo tudo melhor.

  A imagem congelada traz uma emoção, traz uma saudade, traz coisas ao peito que são difíceis de definir, difíceis até mesmo de digerir e, por isso, traz também lágrimas aos olhos. As lágrimas não denotam tristeza, também não denotam alegria; são apenas lágrimas que mostram que estamos muito vivos e sentimos emoção, muita emoção.

  Agora, com estas linhas, procuro congelar um sentimento trazido por uma imagem congelada. É curioso o caminho trilhado pelo coração. É curioso querermos sempre viver um tempo diferente do agora. Daqui a alguns anos, ao ler esta página, provavelmente serei transportado a dois passados e, talvez, tenha uma dupla emoção. Não sei. Apenas gostaria de, assim como minha irmã naquela oportunidade, ter alguém para dividir um pouco os fortes sentimentos que sinto e compartilhar esta emoção.

Campinas, 2 de julho de 2004
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 11/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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