MENOS DOCE 🟡⑪
Eu era muito jovem e tinha uma namorada, ou melhor, uma doce namorada ainda mais jovem que eu. Nos casamos e, com a primeira gravidez, comecei a perceber algo sutil.
Muito, mas muito lentamente, as mulheres em geral passaram a tratar minha doce namorada de maneira diferente. É difícil explicar onde estão as diferenças. Creio que a maneira que mais se aproxima do que percebi seja dizer que as mulheres, em geral, passaram a tratá-la com uma espécie de respeito maior.
Era como se, com a gravidez já adiantada, ela estivesse sendo “aceita” em um clube cuja existência eu desconhecia. As mulheres a que me refiro são as colegas de trabalho, amigas, parentes etc.
Minha doce namorada não era mais vista como uma menina, ou uma adolescente, que, pela idade cronológica, ela continuava sendo.
Definitivamente não!
A cada dia que passava e crescia a barriga, as mulheres mais e mais seduziam minha doce namorada. O pior é que havia uma reciprocidade. Minha doce namorada parecia de tudo gostar.
Na verdade, parecia que ela já esperava por aquilo e contava com aquilo. Pouco a pouco me via sendo excluído de uma significativa parte da vida da minha doce namorada.
Só percebi estas coisas muito tempo depois. Na época eu vi e senti, mas não organizei as ideias, aliás, ainda hoje é algo que não sei explicar ao certo. O fato é que, à medida que a barriga crescia, cresciam também os olhares de cumplicidade, as palavras secretas, as atitudes até então por mim desconhecidas.
Quando enfim nasceu minha primeira filha, definitivamente minha doce namorada foi iniciada no “clube”. Ninguém poderia perceber as mudanças. Somente eu e, ainda assim, não tinha como explicar, como quantificar, como especificar esse ou aquele ponto.
Aparentemente tudo continuava igual, mas eu sabia que não era assim. Minha doce namorada continuava ali e continuava doce, mas talvez um pouco menos doce. Muito pouco, mas o suficiente para que eu percebesse.
É claro que uma criança exige muito da mãe. Mas mesmo com o bebê dormindo e a gente calmamente na sala, ainda assim ela estava diferente. Creio que mais do que ser aceita em um “clube” o que aconteceu de verdade é que minha doce namorada perdeu a inocência.
Creio que nós dois perdemos a inocência. Creio que a mulher e o homem surgiram ali, naqueles momentos.
Primeiro e mais rapidamente surgiu a mulher e, por isso eu, ainda inocente, sofri. Era apenas uma questão de tempo, também já tinha se iniciado o meu processo de perda de inocência.
Não sei se eu era um doce namorado para ela, se era, certamente a partir daquela época também fiquei menos doce.
Campinas, 19 de junho de 2011
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 11/02/2026
Alterado em 07/03/2026