Coisa engraçada a memória da gente!
Ontem, assim, do nada, lembrei-me das minhas crianças quando, de fato, ainda eram bem crianças.
A Madalena, a mais velha, às vezes, quando por qualquer motivo começava a chorar, eu a pegava no colo para tentar consolá-la e, acariciando sua pequena face junto a meu peito, dizia:
— Coitadinha! Coitadinha! Não precisa chorar mais, o papai está aqui.
Ela, depois de aprender o mecanismo, nas próximas vezes, sozinha, chorando, repetia entre soluços:
— Coitadinha! Coitadinha!
Eu morria de vontade de rir, mas, para não desqualificar o sentimento da criança, me continha, divertido.
Outras vezes, juntava ela e a Rita e, em meio às nossas brincadeiras, eu apertava as suas mãos, como se fosse em cumprimento comum, só que com razoável força, o que, certamente, ao forçar uns dedinhos contra os outros, provocava muita dor.
As meninas gritavam, pediam para eu parar e, assim que eu soltava-lhes as mãos, elas corriam para um canto distante e se escondiam do pai malvado.
Em menos de um minuto voltavam lentamente e, hesitantes, me davam a mão para novo aperto, nova dor e novos protestos.
A Rita, que nem falava direito, dizia:
— Paia, pai! Paia, pai!
Implorando para que eu parasse com a tortura.
Depois de a brincadeira já ter se alongado por muito tempo, de tanto rir, ela não conseguia mais dizer “paia pai” e, com a mesma entonação, dizia:
— Paia, paia! Paia, paia!
Eu me divertia muito, sem entender direito aquele masoquismo infantil.
Aliás, até hoje, já na meia-idade, não entendo direito.
Mas estou convicto de que nem tudo na vida é para ser decifrado, catalogado e entendido.
Hoje sou apenas o pai que, vez por outra, troca ideias com as duas filhas advogadas, uma delas, aliás, já com minhas netas a tiracolo.
Mas, naquela época, não era nada disso.
Eu não era apenas o pai.
Não!
Definitivamente, não!
Naquela época eu era o detentor de todas as respostas, o senhor de todas as decisões, o herói de todos os super-heróis.
Eu não me dava conta da felicidade que tinha ao ter minhas três crianças ao mesmo tempo no colo, brincando, contando histórias fantásticas e olhando suas carinhas eufóricas e deslumbradas.
O tempo passou e, agora, fica apenas esta pálida lembrança.
Dizem que, com a idade, a memória recente começa a falhar e, sem razão aparente, chegam ao cérebro lembranças de fatos já há muito esquecidos.
Não sei se já cheguei a essa fase da vida, mas temia muito por ela e, agora, vejo que essas memórias antigas voltam recheadas de prazer e alegria.
Toda idade tem os seus encantos.
Na minha infância, o slogan de abertura do seriado Super-Homem era algo mais ou menos assim:
“Mais rápido que uma bala!
Mais forte que uma locomotiva!
Olhem! Voando no céu!
É um pássaro?
É um avião?
Não! É o Super-Homem.”
Eu ficava excitado na expectativa de mais uma aventura em preto e branco do meu herói favorito.
Lá, na minha infância, não imaginava que, na vida adulta, eu seria muito mais que um super-homem para os meus filhos.
E nem de longe desconfiava que, na meia-idade, essas duas lembranças mescladas me trariam este estranho e doce prazer e esta gostosa e incômoda umidade nos olhos.
Campinas, 25 de novembro de 2004