Acidente na br 🟡⑩
Estávamos na BR-101, em Santa Catarina, a Sarah e eu. Eu dirigia já há bastante tempo, mas não estava cansado. Revezamos a direção ao longo da estrada e tínhamos feito há pouco uma parada mais demorada na casa da minha irmã, que mora em Itajaí com a minha mãe.
Atravessávamos uma ponte bem longa, já na cidade de Tubarão. Eram mais ou menos sete da noite e caía uma chuva bem fininha. O limpador do para-brisa trabalhava sem parar. Eu dirigia um Corolla, carro novo e com quase todos os equipamentos modernos de segurança. Estava na pista da direita a mais ou menos cem por hora. A Sarah acompanhava o trajeto pelo Waze. Admirado pela beleza e extensão da ponte, perguntei:
— Nós estamos sobre o mar?
— Sim — respondeu ela, olhando para a tela do Waze.
Nesse exato momento senti um enorme tranco no carro. Parecia que uma das rodas tinha passado por um buraco muito, muito grande. Não sei se gritei “meu Deus” ou “nossa”. Só me lembro do barulho, do enorme susto e a próxima coisa que vi foi o carro na via da esquerda, virado na contramão. Eu havia rodado na pista no sentido anti-horário, passado a centímetros do guard-rail e parado.
— O que aconteceu?
Perguntei completamente desnorteado, ao mesmo tempo em que via os faróis dos caminhões e carros que vinham em alta velocidade em nossa direção. Eles iriam bater de frente conosco. Minha reação foi dar sinal de farol alto para mostrar que algo de muito errado estava acontecendo, embora eu não soubesse o que era.
Acho que eu estava com uma cara de pânico que a Sarah não conseguia decifrar. Eu olhava para a frente dando sinais de farol, com os olhos vidrados na estrada, mas podia perceber que ela olhava fixamente para mim. Meio insegura, ela falou:
— Amor, fique calmo.
Olhei para ela muito rapidamente, sem tirar os olhos da estrada. Nesse momento ela me pareceu bem pequena, quase como uma criança. Respondi que estava calmo. Lembro-me de ter falado isso duas vezes, em voz baixa e pausadamente, como quem fala a uma criança.
Creio que foi nesse momento que ela, tendo visto o outro carro, percebeu o ocorrido e informou:
— Acho que bateram em nós.
Olhei de lado rapidamente e vi um carro branco saindo fumaça e uma mulher de pé ao lado. Em momento algum parei de sinalizar com os faróis. Estávamos meio fora do ar, meio tontos, meio estranhos.
Ela perguntou:
— E os airbags? Por que não abriram?
Sem parar de sinalizar, olhei rapidamente para os locais dos airbags e voltei minha atenção para os caminhões que, a qualquer momento, poderiam literalmente nos triturar. As coisas pareciam acontecer rapidamente e, ao mesmo tempo, em câmera lenta.
Pensava em sair do carro com a Sarah pela porta do passageiro e subir no guard-rail para fugir de uma possível batida violenta de caminhão. Só que do outro lado estavam as pistas em sentido contrário, com carros e caminhões também passando em alta velocidade. Esses pensamentos surgiam em frações de segundo.
Nesse momento notei que uma imensa carreta estava parando aos poucos, a mais ou menos uns três metros à nossa frente. Olhei de lado e vi que os outros carros também estavam parando.
Abri a porta, bastante inseguro, e desci do carro. A Sarah desceu também e, não sei como, atravessou a pista e foi falar com as mulheres do veículo acidentado. Chamei-a de volta.
Fazendo sinal para que a carreta ficasse parada, olhei o estrago no nosso carro. Concluí que ele podia andar e pedi à Sarah que dirigisse até o acostamento à direita da pista. Ela tentou, mas não conseguiu.
Fiquei com medo da carreta. Parecia que eu estava acuado por animais selvagens. Temia que ela avançasse sobre nós a qualquer momento. Pedi à Sarah que ficasse em meu lugar segurando o enorme caminhão e examinei rapidamente o carro.
Entrei no carro e vi que ela tinha colocado o câmbio automático em posição errada. Ajeitei a alavanca e, para meu alívio, o carro andou suave e macio. Fiz uma volta de cento e oitenta graus e parei no acostamento no sentido correto da pista.
Liberamos o tráfego e, em poucos segundos, sob a chuva fina, caminhões e carros passavam impassíveis em altíssimas velocidades.
A jovem do Fox que nos atingiu não sabia explicar como fez aquilo. Só chorava, pedia desculpas, tentava ligar para o pai e falava desconexamente enquanto levava a mão a um enorme galo na testa.
Minha conclusão é que ela tentou me ultrapassar, passou por uma poça de água e perdeu o controle do carro, atingindo de bico a minha traseira. Com o impacto devo ter pisado no freio, o que fez meu carro rodar. Não tenho certeza de nada disso.
O carro dela estourou o pneu e arrebentou toda a frente. O meu estragou o para-lama, que puxei para o lugar novamente, permitindo-nos continuar a viagem.
A polícia demorou mais de uma hora para chegar. O pai da moça veio acompanhado de um amigo que se dizia da Polícia Federal. Depois chegaram outros tantos amigos deles. Do nosso lado, somente a Sarah e eu.
Eles não tinham seguro e pediram que eu dissesse que havia mudado de pista ou pisado no freio para que meu seguro pagasse o conserto do carro deles. Não concordei.
O acidente foi na terça-feira. A quarta e a quinta não foram dias normais. Parecia que eu estava meio anestesiado. A toda hora voltávamos ao assunto.
Eu nunca havia chegado tão perto da morte. A fragilidade da vida, o sentimento de finitude mexe no fundo da alma.
Embora eu não tivesse culpa, me sentia responsável pela vida da Sarah. Peguei-a em casa e poderia tê-la levado para a morte.
Pensava na minha mãe, uma mulher emotiva de 84 anos que não teria forças para perder um filho.
Via os caminhões se aproximando e ceifando nossas vidas. Às vezes me sentia fora do corpo.
Somente na sexta-feira tudo voltou relativamente ao normal.
Em todo o episódio a Sarah mostrou-se uma companheira de primeira grandeza. Garoando, fazendo frio, e ela firme ao meu lado. Não me deixou só um minuto.
Provou ser uma guerreira. Mulher de fibra!
Agora entendo quando dizem que tudo acontece num piscar de olhos. É rápido demais. A mente humana é fantástica.
Tenho certeza de que Deus nos guarneceu naquele momento. Tudo aconteceu da melhor forma possível. A ponte era iluminada. Se fosse segundos depois, teríamos dado de frente com a carreta.
A mesma mão angelical que orquestrou tudo inspirou-me a dar os sinais de farol que seguraram o tráfego.
Campinas, 30 de maio de 2016
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/02/2026
Alterado em 07/03/2026