PAIXÃO ADOLESCENTE 🟡⑨
Conheci-a na sala de aula. Éramos jovens, descontraídos, entusiasmados. Ela, além de tudo, linda. Sempre admirei suas mãos. Talvez o fato de ela escrever com a mão esquerda tenha sido o que mais me chamou a atenção.
Suas mãos eram pequenas e esguias. Encantavam-me os movimentos que fazia para escrever, para mexer nos cabelos, para mudar de lugar uma coisa qualquer. Aliás, sendo descendente de italianos, ela usava as mãos também para falar e eu, preso a esses movimentos, por vezes não ouvia o que dizia — apenas me deixava embalar pelo movimento de suas mãos e pelo som de sua voz.
Um dia, a lâmpada fluorescente da sala começou a piscar. A professora se irritou com aquilo; os alunos diziam tratar-se apenas de um mau contato e que tirar e colocar a lâmpada no lugar poderia resolver o problema.
A professora improvisou uma escada, subiu na mesa e, desajeitadamente, tentava mover a lâmpada para sanar o problema. Nenhum dos marmanjos se habilitava a ajudar a pobre professora. Todos nós assistíamos ao espetáculo, divertindo-nos com a cena.
Em dado momento, ela se levantou da carteira, subiu na escada improvisada e, solidária e corajosamente, propôs-se a ajudar a professora em sua empreitada.
A lâmpada fluorescente, como todos sabem, é comprida como um cano. Imaginem só: ela encostava na lâmpada e a garotada suspirava em uníssono:
— Uuuuui!!!
Ela movimentava a lâmpada para um lado e para o outro, e a classe imitava filmes pornôs americanos:
— Yes, yes, yes...
Ela, mais vermelha que um carro de bombeiros, mantinha o sorriso no rosto. Não muito a sério, bronqueava com os marmanjos e, sem perder por um momento o foco no trabalho, mantinha-se firme e convicta na tarefa.
A essa altura eu já não engrossava o coro da molecada. A paixão que secretamente eu nutria por ela foi potencializada ao extremo.
Ela, sobre a mesa, parecia estar em um palco. E eu ali, assistindo, hipnotizado por seus movimentos, por suas curvas, pelo esvoaçar de seus cabelos e, sobretudo, por suas hábeis mãos que delicadamente se esforçavam para consertar a lâmpada.
Aquele momento ficou gravado no filme da minha vida.
Tramei peripécias para que ela me notasse, enfrentei dragões para lhe parecer interessante. Fui vitorioso. Depois de mais ou menos um mês, eu a apresentava orgulhosamente como minha namorada.
O tempo passou, aquela escola foi sucedida por outras e nós... bem, nós é assunto para outro dia.
Campinas, 3 de julho de 2009
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 07/02/2026
Alterado em 07/03/2026