Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
VIZINHAS 🟡⑦
O apartamento onde moro, num segundo andar, tem quase todas as janelas voltadas para uma casa onde tenho quatro vizinhas que não me dão nenhum trabalho. São as graciosas Bolota, Fifi, Maxixe e Gasosa.

Acontece que a mulher que cuida das quatro cadelas me faz preferir mudar para perto de uma escola de samba ou para o centro da bolsa de valores.

Não creio que a desgranhenta tenha culpa. Acho que é um problema de física, isso mesmo, física. É que o estridente timbre de voz da mulher, de alguma forma misteriosa, tem o poder de atravessar paredes e alcançar distâncias incomensuráveis.

Como as cachorras não falam português e as demais pessoas da casa têm voz normal, não dá para saber o nome da tal mulher. Se eu tivesse que dar um chute, diria que se chama Dona Hemorroida, ou quem sabe Dona Ornitorrinco, ou ainda... sei lá.

No começo eu achava a Dona Disforme meio louca por falar sozinha o dia inteiro. Só depois de algum tempo é que descobri que ela falava com as cachorras, ou melhor, gritava o dia inteiro com as coitadas.

Logo que mudei para o apartamento, uma vez pela manhã fui ver a razão de tamanha gritaria, mas, por já ter experiência com o antigo proprietário do imóvel, descobri que a Dona Pavorosa tem uma arma letal contra curiosos como eu.

Pela manhã, a tal mulher, a Dona Grotesca, sempre está de camisola transparente.
É uma visão do inferno, acredite.

Ver a Dona Oleosa de camisola acaba com minha libido por uma semana.

Só de pensar em sexo já tenho dor de estômago e, em casos mais graves, convulsões terríveis.
Portanto, o melhor a fazer é ficar apenas sofrendo com os gritos da Dona Tenebrosa.

Interessante o poder de penetração da voz da Dona Privada Entupida.

Parece aquele personagem de um filme chamado O Senhor das Armas, interpretado pelo Nicolas Cage, que faz um vendedor de armamentos que entra em quaisquer dois países em guerra e vende armas para os dois lados.

Igual à Dona Disenteria Crônica, cuja voz me atinge em qualquer ambiente do apartamento.
Não há defesa nem esconderijo seguro.

À noite, estamos vendo a novela e a Patrícia Pillar vira para o Ricardo Assumpção e diz com voz sensual:

— Querido, você...

Nesse momento some a voz macia da Patrícia Pillar e entra a voz da Dona Descarga de Boteco:

— BOLOTA!!! NÃO QUERO SABER DE VOCÊ PERTO DO TANQUE!

Outras vezes, no final de um filme de suspense, na hora da revelação do nome do assassino, o detetive dá uma tragada no cigarro e diz:

— GASOSA! MAXIXE! FIFI! NÃO QUERO VER NENHUMA DE VOCÊS PARADAS AÍ!

Lá se vai meu filme pro beleléu.

E é assim com o futebol, a Fórmula 1, o telejornal, o que for.

A Dona Leguminosa não perdoa nada.

Não me dá a mínima chance.

Somando isso ao fato de eu morrer de medo de olhar para o quintal e ela estar com os trajes que fulminam minha masculinidade, só me resta lamentar.

Outro dia, pela manhã, eu e a Wilma não estávamos acordados nem dormindo.

Para mim esse é um momento mágico do dia. Fico ali na cama, bem aconchegadinho com minha mulher, entre o mundo dos sonhos e a realidade do aconchego. É uma delícia. Pode durar cinco minutos ou uma hora. O tempo não existe. Sonho e realidade se mesclam disputando o que me dá mais prazer.

Pois bem, outro dia, nessa hora da manhã, sou trazido à dura realidade pelos gritos de Bolota, Fifi, Maxixe e Gasosa pela Dona Esquistossomose.

Ainda com voz pastosa, minha mulher vira para mim e diz:

— Neguinho, você sabe onde vende bazucas?

Com a mesma voz respondo que não, infelizmente.

Ela insiste:

— E o Nicolas Cage, será que na internet tem o endereço dele?

São Paulo, 6 de junho de 2008
Clériston Santos
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 05/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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