Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos

Madalena e Silas tinham sete filhos. Nenhum deles era realmente filho do casal; eram todos frutos de uniões anteriores — portanto, uma típica família moderna, só que um pouco mais numerosa.

  Para abrigar todos em um único veículo, foram obrigados a comprar uma Kombi, apesar dos insistentes protestos da Madalena, que brigava por uma van, mesmo ciente de que as economias do casal e a enorme gastança com a criançada não permitiam pensar em carros caros.

  A primeira viagem com a Kombi foi para a praia. Além da filharada toda, levaram os japonesinhos Mifumi Grande e Mifumi Pequeno, dois irmãos, um com cinco e outro com quatro anos, que eram amiguinhos dos filhos Juarez e Danilo, da mesma idade.

  No caminho da praia, um guarda parou a kombosa, achando tratar-se de lotação, o que não é permitido em algumas praias paulistas.

  O guarda, com cara de poucos amigos, disse ao Silas:

  — O senhor não sabe que não é permitida lotação clandestina nesta praia?

  — Desculpe, seu guarda, não se trata de lotação. São todos nossos filhos.

  O policial olhou para o interior da Kombi e, vendo aquela garotada de cores, cabelos e aparências tão diferentes — que mais parecia um agrupamento de etnias diversas fugindo de alguma guerrilha no Iraque ou no Cazaquistão — falou:

  — O senhor está de brincadeira comigo? Deixe-me ver os documentos da perua.

  A Madalena, nervosa, entregou ao guarda o próprio CIC e RG. O Silas, querendo controlar a situação, forçou um sorriso e disse baixinho:

  — Não... é o documento da Kombi. Está aí no porta-luvas.

  Nisso chegou o sargento e perguntou ao guarda o que estava acontecendo:

  — O cidadão aí deve trabalhar de motorista na quitanda dos pais dos japonesinhos e está fazendo bico com a molecada da vizinhança para sujar a praia, mas afirma que são todos seus filhos.

  O sargento olhou para o interior da perua, coçou a barba e disse:

  — Quer dizer então que todos são filhos de vocês, não é? Até os japoneses...

  O Silas, com um sorriso meio nervoso, lembrou-se dos japinhas:

  — Não, policial. Os Mifumi são amiguinhos dos meninos, mas os outros realmente são nossos filhos... alguns...

  O policial interrompeu:

  — Que negócio é esse de “me fume”? O senhor está levando drogas aí?

  — Não é nada disso...

  Nesse ponto, Danilo combinou com Juarez e os japoneses de aplicar um golpe de caratê no guarda, mas acertaram a Lira, de oito anos, que estava quieta comendo uma manga e lambuzando o banco do carro novo.

  — Mamãe! — ela berrou — Os meninos estão lutando e vão derrubar a minha manga!

  A Jussara, de cinco anos, cujo comportamento sempre lembrava o de um índio que jamais teve contato com a civilização, soltou um pum e se fingiu de santa.

  O cheiro começou a tomar conta da Kombi, e a Carla, de dez anos, gritou:

  — Papai, a Jussara soltou outra bomba daquelas! Eu não aguento ficar neste carro!

  O Silas, encurralado entre as crianças e o guarda, já começando a sentir o cheiro, apenas exclamou:

  — Seeeenhoooor!!!

  Os policiais, que já estavam desconfiados de tudo, ouvindo falar em bombas e drogas e achando que a exclamação do Silas era alguma senha, sacaram as armas.

  O Silas, meio tonto com o cheiro, gritou com a Jussara.

  A Madalena, que ainda não tinha sido atingida pela radiação da bomba da menina, cutucou o Silas para não gritar com as crianças.

  Os policiais disseram rapidamente:

  — Todo mundo com a mão na cabeça!

  A Lira, com carinha de anjo, disse ao guarda que não podia pôr a mão na cabeça porque estava ocupada tampando o nariz.

  Juarez e Danilo se prepararam para dar outro golpe nas armas dos policiais, auxiliados pelos Mifumi, que se protegiam dando gritos de guerra copiados dos desenhos da Liga da Justiça.

  Nisso, chegaram mais policiais que, armados, cercaram a perua e, aos poucos, foram controlando a situação.

  Muitas horas depois, todos já na areia do mar, Silas convocou uma reunião de emergência com toda a criançada e, na hora de falar, olhou para a turma, coçou a cabeça, suspirou e disse:

  — Querem saber de uma coisa? Deixa tudo pra lá e vamos tomar sorvete.

Campinas, 04 de janeiro de 2007

Causo contado pelo saudoso e querido amigo, Wilson.

publicada tambem no blog: https://nicolasalsan.blogspot.com/

Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 02/02/2026
Alterado em 07/03/2026
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