AGRURAS DE UM DESCASADO 2 🟡⑤
Há mais de um ano descasado e pensando em fugir do aluguel, financiei uma pequena casa em um condomínio meio longe de onde vivo. A casa vem pelada, ou seja, sem acabamentos de piso, sem armários nos banheiros, sem algumas paredes e sem outras coisas que só vou descobrindo à medida que converso com as pessoas que entendem do assunto e me mostram detalhes que a vendedora, maliciosamente, não mostrou.
A própria corretora me indicou alguém para fazer os móveis da cozinha, armários do closet e gabinetes dos banheiros. Chama-se Valéria. Tivemos uma conversa curta e marcamos um encontro na loja. Visitei-a em um sábado e, depois de mais ou menos ciente do que queria, Valéria me levou para ver os tais armários do closet.
— Olha só que lindo!
Ela falou entusiasmada, mostrando-me um armário todo esquisito tomando as paredes de um cubículo que mais parecia uma cela solitária daqueles filmes sobre castelos medievais. Olhei desconfiado e disse:
— Ih, Valéria! Acho que aí não cabem minhas roupas. Eu trabalho de terno e eles costumam tomar muito espaço.
Ela foi até uma das varetas onde se penduram os cabides e, com cara de espanto, respondeu:
— Que é isso? Quantos ternos você tem?
Busquei na memória e não consegui me lembrar ao certo. Chutei que eram dez ou doze, mas que também havia outras roupas pesadas, como casacos de couro etc.
Ela fez uma medida com as mãos e tentou me mostrar que cabiam os ternos e roupas semelhantes no lugar idealizado para tal. Não fiquei de todo convencido, mas preferi ficar quieto e seguir adiante.
— Valéria, quando eu chego do serviço, onde ponho meu terno?
Odiei a resposta.
— Você vai fazer da mesma forma que faz hoje: pega o cabide onde estava antes e coloca tudo no lugar.
Bem, não costumo colocar as coisas no lugar certo. Hoje, quando chego do serviço, atiro paletó, calça, sapato e gravata na primeira coisa que estiver por perto.
Outro dia, logo depois de “guardar” tudo, vi o terno sair andando sozinho. É que eu tinha colocado tudo em cima do cachorro que, desesperado e com medo de ter que trabalhar no meu lugar, saiu em disparada pela casa.
— Valéria, acho que vou colocar um negócio daqueles compridos que têm um monte de espetos e a gente pendura as roupas...
Ela me interrompeu com uma reação violenta:
— Não, senhor! Nem pensar! Não vou deixar você colocar uma arara no closet da casa nova. Aquilo é ridículo.
Fiquei pensando que eu não ia colocar dentro do closet, mas, com medo de apanhar, fiquei calado. Acho as araras tão bonitinhas e tão práticas, mas não podia admitir isso depois daquela reação.
Além disso, as mulheres costumam mandar em mim, principalmente quando o assunto é roupas, cozinha, carros, comida, avião etc., etc., etc...
Continuei olhando o closet e perguntei sobre um local bem comprido para colocar vestidos. Ela me olhou com cara de espanto. Sabendo que estou solteiro, acho que ficou pensando que eu sou travesti.
— Olha aqui quanto espaço!
Ela falou, mostrando um trecho do armário que, a meu ver, caberia apenas uma parte dos esmaltes de unha da minha ex.
— Hoje em dia não se usam tantos vestidos. Aqui cabem muitos.
Definitivamente ela acha que sou travesti. Alguma coisa no seu olhar me confirma isso.
Tentando tirar a má impressão, falei que pretendia me casar novamente e não sabia o que minha futura esposa iria usar. Ela não ouviu. Continuou explicando as coisas e me olhando de maneira muito esquisita.
Tentei fazer cara de machão, mas acho que foi pior. Não fui convincente.
Como de vez em quando fumo cachimbo, pensei em mentir dizendo que fumava todos os dias e que queria um lugar para colocar minha coleção. Mas pensei melhor e achei que ela ia achar mais esquisito ainda um travesti fumando cachimbo. Abandonei a ideia.
— Valéria, seus vestidos cabem aí?
— Claro que cabem, e ainda sobra lugar.
Fiquei com a nítida sensação de que estava sendo enrolado. Lembrei do caso da Jussara e dos pirulitos.
Um dia, estava com saudades de minhas netas e, depois de ligar avisando que levaria um pirulito para a Jussara, de dois anos, fui até a casa das meninas.
— Cadê meu “pururito”, vovô?
Ocorre que não havia pirulito na padaria e comprei uma caixa de chocolate Bis. A menina não se conformou, fechou a cara e disse que não queria.
Não havia como convencê-la a aceitar o chocolate no lugar do pirulito. Quando vi que não tinha jeito, fui até a cozinha, peguei um palito de dentes, espetei o Bis e disse:
— O vovô estava brincando. Está aqui o “pururito”.
Feliz da vida, ela saiu com o Bis espetado, pensando que era pirulito.
Pois bem, olhando aquele lugarzinho onde só caberiam uns poucos vestidos — ou melhor, algumas minissaias, daquelas bem minis — senti que a Valéria estava me dando Bis no palito e dizendo que era pirulito.
— Valéria, para de me enrolar...
— Que é isso? É que você está vendo o armário contornando as paredes e em forma de “U”. Se você imaginar ele esticado, desentortando o “U”, ele fica mais ou menos com oito ou dez quilômetros de comprimento.
De alguma forma, achei que estava sendo levado no bico. Dez quilômetros é muito armário.
Pensei que era praga da Jussara, minha neta, e me senti completamente indefeso. As mulheres costumam me enganar e fazer o que querem comigo; vendedores com boa lábia também me enganam fácil, fácil. E ali, naquele momento, Valéria era as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não tinha chances.
Resolvi ganhar tempo e disse que ia pensar com calma no assunto.
Eu tinha que tirar a impressão de que era travesti, tinha que ver qual espaço necessário para os tais vestidos e, principalmente, comprar uma arara e colocar no meio da sala.
Vai ser minha vingança.
A Valéria nunca vai saber, mas, no fundo, estarei vingado.
Talvez compre até mais de uma.
Que delícia!
Campinas, 14 de fevereiro de 2006
publicada tambem no blog: https://nicolasalsan.blogspot.com/
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 29/01/2026
Alterado em 07/03/2026