AGRURAS DE UM DESCASADO 🟡④
De noite, sozinho na cama, fico calculando quanto pago de aluguel, mais condomínio e taxas, e chego à conclusão de que o financiamento de uma casa um pouco mais simples, em um condomínio recém-lançado, seria bem mais vantajoso.
Depois de o modelo da casa escolhido, pagamento da entrada efetuado e data da entrega prometida para mais uns três meses, penso que tudo está resolvido. Foi exatamente nesse maldito momento que a corretora, já em um papo informal, me mostra uma casa igualzinha à minha que foi “expandida”, dentro das normas do condomínio local.
Fico espantado. É uma casa completamente diferente, muito maior e muito mais confortável. Sem entender direito a coisa toda, pergunto o que foi feito. Depois de longas explicações — das quais só entendi que custaria algo que eu poderia pagar — decido fazer a tal expansão. Pergunto à corretora:
— Rita, me diz quem é que faz a obra.
Entregando-me um cartão, ela responde:
— É o Gustavo, engenheiro que tem larga experiência no assunto aqui no condomínio.
No dia seguinte, ligo para o número indicado no cartão. Explico que comprei a casa e gostaria de fazer a expansão prevista na planta. Ele me ouve educadamente e responde:
— Olha, por telefone fica difícil explicar. Seria legal a gente conversar lá mesmo, na obra. Quando você vai estar por lá?
Depois de tudo combinado, chega o dia e lá estou eu esperando o engenheiro em meio a uma casa semiconstruída — ou, na minha ótica, toda fodida — com montes de areia por todos os cantos, sacos de cimento espalhados e por aí afora.
Na hora marcada, chega um jovem de seus trinta anos, cabelos um pouco compridos, bem-falante e, depois das formalidades, começa uma série interminável de explicações e possibilidades que vão, pouco a pouco, me enlouquecendo.
Quando ele percebe minha cara de enorme ponto de interrogação, faz uma expressão de “o cara não está entendendo bulhufas” e, como se fosse o super-homem, finge empurrar a parede da cozinha e diz:
— Imagine que estou empurrando esta parede para ali, a mais ou menos um metro, um metro e meio, como você preferir.
Funcionou. Finalmente entendi o que havia séculos ele tentava explicar e falei:
— Ah, bom! Saquei. Vai ficar muito legal, a cozinha ganha bastante espaço.
— Pois é — ele responde — mas, neste caso, quanto maior a cozinha, menor a área de serviço.
Danou tudo de novo. Eu nem lembrava que a casa tinha área de serviço. Cocei a cabeça — ou melhor, a careca — e fiquei imaginando qual seria o tamanho ideal para uma área de serviço.
Ao mesmo tempo, vendo o rapaz fazer aquele gesto de super-herói impedindo que o trem atropele a mocinha, minha imaginação foi longe: via-o com uma capa esvoaçante; via a parede se movendo lentamente; a parte de cima da casa caindo sobre a cabeça dele; areia, pó, ferros, tudo desmoronando e, à medida que a parede ia se movendo, os azulejos da cozinha se esticavam como se fossem de borracha. Tudo ficava muito engraçado e esquisito.
Nesse momento, noto que ele está no final de um enorme discurso do qual não ouvi uma palavra:
— Você percebe? — finaliza ele.
O que percebo é que não consigo me concentrar nessas coisas e, meio atrapalhado, conto uma mentira deslavada para disfarçar:
— Desculpe, Gustavo, me distraí calculando a área de ganho e não ouvi direito sua explicação.
Ele explica, reexplica e, quanto maior o número de opções, mais confuso eu fico e mais disposto a abandonar tudo e continuar pagando aluguel.
Quando vi que realmente a coisa não ia andar, tomei uma decisão:
— Gustavo, é o seguinte: faça uma cotação de preço para uma expansão igualzinha àquela que a corretora me mostrou e ponto final.
Pobre de mim. As coisas não são tão simples. Feita essa escolha, há detalhes e mais detalhes a serem decididos. Onde vão as tomadas? Onde vai ficar a TV? Mantém-se os azulejos iguais aos da construtora ou, aproveitando que metade vai ser perdida, troca-se por algo mais personalizado?
Enfim, um mundaréu de coisas que a Rita não tinha me falado e que, em algum momento, eu teria de decidir.
Imagine minha cara ao ter de resolver se a TV iria ficar perto dos tijolos soltos ou ao lado dos sacos de cal. Sei lá. Não tenho imaginação para coisas tão complexas. Pelo menos o negócio da TV resolvi mandando colocar ponto nos dois lados.
Quanto às demais questões, menti dizendo que iria pensar melhor e depois mandaria um e-mail ou telefonaria para o coitado do Gustavo.
No caminho de volta para casa, fiquei lembrando como a minha ex era expert em tais assuntos. Se ela estivesse presente, a mim caberia apenas o poder de veto quando pedisse uma plataforma de lançamento de foguetes no quintal ou, no andar de cima, uma torre para prospecção de petróleo.
Doces tempos... e eu ainda reclamava.
Campinas, 3 de fevereiro de 2006
publicada tambem no blog: https://nicolasalsan.blogspot.com/
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 29/01/2026
Alterado em 07/03/2026