Clériston Santos
O mais corajoso, pede desculpas. O mais forte, perdoa. O maiz feliz, esquece.
Textos
DESPERTADOR 🟡②
Estou em um jardim imenso, muito, muito bonito. Caminho de mãos dadas com a Gi. De vez em quando trocamos carícias. Gi é a Gisele, aquela modelo conhecida. É como se eu estivesse nas nuvens.

            De repente começa o barulho do despertador de um telefone. Aquilo vai transformando a paisagem, o clima, o ambiente, tudo.

            — Gi, dá o telefone que eu desligo o despertador.

            — Não é o meu, deve ser o seu.

            Nisso já começam a aparecer lama, vento, a própria Gisele já não é a mesma. Procuramos o tal telefone por lugares sombrios que antes não existiam e nada. A musiquinha insuportável parece crescer, invadir todos os nossos sentidos, nos tortura.

            Da mesma forma que começou, a musiquinha para de tocar. Embora venha um alívio significativo, as coisas já não são mais como antes. As cores não são mais as mesmas e já não é a Gisele que está ao meu lado. Aquela mulher não parece uma modelo famosa. Nem mesmo uma modelo ela parece. Mas estou bem e continuamos o passeio.

            De um segundo para outro, a musiquinha enjoada retorna. Agora fico bem transtornado. O som é alto, já caminhamos em lugar pantanoso e a Gisele já está parecendo algo como uma coruja ou um urso, sei lá. Tá tudo ruim. Preciso desligar o tal aparelho urgente.

            Acordo, mas não chego a abrir os olhos. Fico imaginando quem colocou o telefone para despertar às quatro da madrugada, fazendo frio, chovendo e em um sábado. E, para agravar, quando estou na companhia da Gisele Bündchen.

            Só pode ser o celular da Sarah, minha mulher. Ela trocou de aparelho recentemente e deve ter programado sem perceber. Coisa boa quando a gente tem um culpado. Como só moramos nós dois, ela é a culpada de tudo.

            “Vou destruir este maldito”, penso comigo, ainda meio dormindo. A musiquinha tocando e eu arquitetando métodos de destruição. Um tiro de R15, uma marretada, uma machadada com aqueles machados de lenhador. Um só golpe: plá. E o abençoado silêncio retornaria.

            Com esforço, esforço sobre-humano, me levanto. Pego a R15, o machado e, por garantia, um taco de beisebol. Nos filmes sempre as personagens têm tacos de beisebol.

            Desço as escadas ainda muito sonolento e, antes de chegar na sala, o telefone outra vez para de tocar. Grito um palavrão. Na verdade, sussurro um palavrão. Acho que apenas pensei, não estava com forças para mais do que isso. O telefone percebeu que eu estava chegando e se escondeu covardemente.

            Acabo de descer e percebo quatro suspeitos: o tablet, o novo telefone dela, o antigo e o meu. Um dos quatro está com os minutos contados. Deixo minhas armas preparadas, sento no sofá e fico esperando o reinício do toque.

            Sinto-me um caçador, um guerrilheiro, mas com muito, muito sono, talvez ferido e moribundo. Acabo cochilando no sofá. Neste momento o tablet se revela. O pior é que o tablet quem mexe sou eu, portanto não posso culpar a Sarah.

            O sono me atrapalhou um pouco, mas desliguei e voltei pra cama quentinha. A chuva e o frio deixavam o ambiente delicioso. Voltei a dormir, mas a Gisele não apareceu mais. Acho que ela ficou decepcionada comigo. Eu também fiquei.


Campinas, 4 de agosto de 2018

publicada também no blog: https://nicolasalsan.blogspot.com/
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 28/01/2026
Alterado em 07/03/2026
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