A EXTERMINADORA 🟡㉛
Até aquele dia eu nunca tinha entendido direito por que, no cinema, por vezes, quando querem mostrar muita velocidade, os diretores optam pela câmera lenta, ou o termo mais chique, slow motion.
Era assim com “Ciborg — O Homem de Seis Milhões de Dólares”. Quem não se lembra? Quando ele ia perseguir algum malvado inimigo e usava suas pernas biônicas para atingir supervelocidades, nós víamos tudo em câmera lenta. Era uma delícia!
Naquele filme “Carruagens de Fogo” — não tenho muita certeza sobre o título, mas é o que conta a história dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna — também era assim: quanto mais veloz o atleta, mais lenta a câmera. É realmente curioso como esse pessoal do cinema consegue entender a cabeça da gente.
Outro dia, aliás, já faz muito tempo, entendi tudo. Agora acho que já posso me apresentar a Hollywood e, quem sabe, brilhar nas telas.
Estávamos sentados na sala lendo, a Rose e eu. Em um outro quarto muito longínquo, talvez a milhas e milhas de nós, um celular insistia em avisar que estava com a bateria no fim. Era um celular inteligente e faminto, que escolhia justamente os momentos em que a leitura estava interessante para lançar seu choro:
— PIM PIM.
A cada pim pim, eu pensava em percorrer todas aquelas milhas e ir alimentar o coitado, mas, como sei que a Rose se irrita muito com celulares chorões, fingia continuar a leitura enquanto observava sua reação. Ela parecia indiferente, parecia não ouvir o lamento do celular que agonizava. Eu ficava ali, à espreita, esperando o desfecho.
— PIM PIM.
Ela não me pediu para desligar o celular, não reclamou do seu lamento. Na verdade, não parecia ouvir. Se eu estivesse lendo um jornal, faria um buraquinho no meio e, através dele, observaria melhor. Mas não dava para furar o livro. A solução era olhar ora por cima, ora por baixo e ver em que momento ela falaria alguma coisa.
— PIM PIM.
Foi assim, como um raio. Depois de certo pim pim, a mulher levantou decidida, furiosa, enlouquecida, com o olhar de um matador cruel e ensandecido. Não sabia se ela iria avançar sobre mim por ter percebido minha manobra ou se iria percorrer o longo caminho até o celular chorão. Apavorado, encolhi-me na poltrona.
Felizmente ela partiu em direção ao celular.
Foi aí que eu entendi como se faz cinema.
Naquele momento, parecia-me que ela andava em câmera lenta. Embora eu soubesse que ela estava quase correndo, na minha cabeça caminhava em um slow motion digno de Spielberg.
Seus pés batiam no chão e tremiam todo o apartamento. Se eu tivesse um medidor Richter, daria para ver a escala dos mini-terremotos que ela causava.
Tum, tum, tum.
Seus passos faziam tremer meu coração, os móveis, o lustre. Sua trajetória até a porta da sala pareceu durar uma eternidade.
Procurei em suas mãos algum objeto que ela usaria para destruir o celular e não achei nada. Nada de martelo, nada de machado, nenhuma arma. Nada. Enfrentaria o inimigo de mãos limpas.
Que coragem! Que gana! Que mocinha!
Saiu do meu campo de visão. Daí em diante, acompanhei os acontecimentos apenas pelos sons de seus passos e pela destruição dos móveis à procura do inimigo.
Em dado momento, escutei, em tom decrescente, os gritos finais do coitado:
— PIM PIM PIM PIM PIM PIM ...........
Voltou um pouco mais calma. Sentou-se como se nada tivesse acontecido e recomeçou a leitura.
Pensei que, na volta, ela iria me atacar também e fiquei imaginando como seriam meus sons finais, mas, por sorte, fui poupado daquela vez.
Naquele momento, lembrava-me das cenas finais de “O Exterminador do Futuro”, quando a mocinha esmaga o robô cujos olhos — luzes vermelhas — vão se apagando aos poucos.
O mesmo final do meu inocente celular.
Pena que não teve trilha sonora.
Campinas, 8 de novembro de 2005 publicado também no blog: https://nicolasalsan.blogspot.com/
Clériston Santos
Enviado por Clériston Santos em 28/01/2026
Alterado em 07/03/2026